Especialistas dão dicas para o Enem

A um mês do exame, EM começa a publicar série de matérias com dicas sobre cada uma das áreas

Junia Oliveira –

“No Enem, não basta bagagem intelectual, é preciso preparo psicológico. Mas também não é possível deixar de lado os estudos” – Rita Magalhães Oliveira, de 17, estudante

Agora falta pouco. Daqui a um mês, milhões de estudantes brasileiros estarão frente a frente com a prova que é sinônimo de passaporte para as universidades federais. Na reta final, o estresse e a ansiedade tomam conta sim, mas neste momento é fundamental focar no elemento-chave do sucesso no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): a preparação. O Estado de Minas começa hoje uma série especial de reportagens para ajudar os candidatos a fazer bonito. Nas próximas terças-feiras e ao longo da semana que antecede os testes, professores dos colégios de Belo Horizonte mais bem classificados no Enem darão dicas preciosas sobre cada uma das áreas cobradas na avaliação e de como fazer bonito no dia. A primeira matéria mostra que, em ciências humanas e suas tecnologias, superar a visão compartimentada do conhecimento e buscar um diálogo interdisciplinar entre a história, a geografia e a filosofia é fundamental.

Nessa área, o raciocínio implica relacionar diversas disciplinas. “Assim, história se torna o melhor suporte para filosofia, que por sua vez ajuda a entender a cultura dentro de um espaço, que é a própria geografia”, afirma o professor de história do 3º ano do Colégio Magnum Cidade Nova Herberton Sabino, o “Pinta”. Ele acrescenta que o Enem supera a “decoreba” e exige uma formação mais analítica, senso crítico e cultura geral. “O aluno que estuda para ter o máximo possível de informações, não as transformando em conhecimento aplicado, acaba não tendo êxito. A ênfase são as competências e as habilidades em ciências humanas, é a capacidade de ler o mundo”, ressalta.

O Ministério da Educação (MEC) quer testar, dentro da matriz de referência do Enem, seis competências. As primeiras incluem a capacidade dos candidatos de compreender os elementos culturais que constituem as identidades; as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder; e a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas. É importante também entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social; usar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia; além de analisar a sociedade e a natureza em diferentes contextos históricos e geográficos.

Compreensão

São essas relações que encantam o aluno Fernando Borges de Sousa Lopes, de 18 anos, candidato a uma vaga em economia. Ele diz que a possibilidade de olhar o passado para compreender a atualidade e de estudar pensadores cujas teorias ainda regem o mundo atual o fizeram ter a certeza da preferência por ciências humanas. “Essa área me dá prazer em estudar, pois as matérias são perfeitamente encaixadas no cotidiano”, afirma.

“A proposta do Enem é interessante não só por tocar nas questões didáticas, mas por colocar em prática o que pode ser abordado hoje. Quando ligo a televisão ou leio os jornais, posso usar isso para ver algo que estou aprendendo” – Fernando Borges de Sousa Lopes, de 18, estudante

“A proposta do Enem é interessante não só por tocar nas questões didáticas, mas por colocar em prática o que pode ser abordado hoje. Quando ligo a televisão ou leio os jornais, posso usar isso para ver algo que estou aprendendo. Aproveito esse sistema global para desenvolver minhas habilidades. O livro é importante para formar e ter conhecimento do assunto, mas ter o auxílio da internet, de vídeos, enfim, aplicar no cotidiano as matérias que aprendemos é legal”, observa Fernando. Para o adolescente, o principal desafio são os textos e saber interpretar a data a que se referem. “A linguagem de certos textos de época é arcaica. É preciso muita paciência para essa análise e, ao mesmo tempo, ler e o mais rápido possível o que está sendo dito. Isso é o que pode tomar tempo e nos fazer perder muitas questões. Tenho trabalhado muito isso.”

É preciso saber ‘ler’ o mundo

Charges, gráficos, mapas, documentos de época e até pinturas, apresentados com variações de textos, podem ser elementos para contextualizar acontecimentos históricos. Por isso, desenvolver a capacidade de ter vários olhares faz toda a diferença. Outro aspecto importante, segundo o professor Herberton Sabino, é estar atento à elaboração e formação de conceitos, principalmente no que se refere à cultura, à memória, a identidades (pessoal, local e nacional) e ao patrimônio histórico e cultural.

“Para ter esse discernimento, o aluno precisa desenvolver leitura, principalmente de mundo. Não dá para ser preso e alienado. O mercado editorial é muito grande e tem revistas na área de história, biologia, filosofia que não são científicas no sentido da rigidez, mas têm um texto mais elaborado e aprofundado”, relata. “Ao fazer essa leitura, é preciso ter olhar crítico e analítico. À medida que leio um jornal ou revista, estou exercitando o que vou fazer na prova, que é a habilidade, compreender uma notícia e ter uma opinião, inclusive como cidadão”, afirma.

Mas o professor destaca que não basta ter postura analítica, é preciso uma formação multifacetada, seja no aspecto da cultura, da diversidade geográfica ou do pensamento. “Quem tem visão unilateral está prejudicado e mais suscetível a visões preconceituosas, o que é penalizado no processo de avaliação do Enem”, diz. Professor de geografia do colégio, Silvânio Fortini chama a atenção para os temas relacionados ao meio ambiente, que, segundo ele, nas últimas edições do Enem responderam por cerca de 50% da prova de ciências humanas. A situação da água, questões urbanas e sanitárias são os três principais focos. Ele ressalta que a capacidade de o aluno fazer análises, correlações, ligar assuntos e sintetizar o que está sendo observado são habilidades imprescindíveis na prova. “O que manda agora é o conhecimento difuso”, relata.

Essas possibilidades fazem brilhar os olhos da aluna Rita Magalhães Oliveira, de 17 anos, candidata a uma vaga no curso de direito. Ela conta que em casa seleciona matérias e busca extrapolar o conteúdo do colégio. Para Rita, se manter conectada ao que ocorre é fundamental. “No Enem, não basta bagagem intelectual, é preciso preparo psicológico. Mas também não é possível deixar de lado os estudos.”

Como se preparar

Saiba o que o professor Herberton Sabino, do Colégio Magnum, indica para os estudos que antecedem a prova e durante a avaliação
Antes:
1) Lembrar que o estudo prioriza as competências e habilidades, portanto, um conhecimento essencialmente atual e aplicado
2) Ler revistas semanais, jornais e publicações especializadas
3) Abordar o conteúdo sempre por um viés interdisciplinar, não estudar a história sem dialogar com a geografia, filosofia e com as disciplinas de outras áreas, como a literatura e biologia
4) Desenvolver e adotar uma postura analítica e crítica frente ao conhecimento
5) Treinar a leitura de textos diversos: pintura, charges, mapas, gráficos, documentos de época
Na hora:
1) Manter o equilíbrio emocional e a autoconfiança
2) Ler as instruções e conferir os cadernos e gabaritos para prevenir problemas
3) Identificar no item a situação problema a ser analisada
4) Ler com atenção buscando apreender no texto introdutório o quando (contexto), onde (espaço), quem (agente), o que (acontecimento/processo)
5) Preencher o gabarito com atenção

Diário de classe

Leonardo Oliveira de Vasconcelos, Professor de Filosofia e Sociologia do Colégio Magnum

A filosofia no vestibular

“Em sala de aula, trabalho com os alunos temas que aparecem constantemente no Enem e nos vestibulares no campo da filosofia, como a diferenciação da ética e da moral, uma vez que a moral são os costumes de um povo. Já a ética é mais abrangente, inclui a análise desses costumes e análise moral. As concepções políticas também são muito importantes, pois as habilidades do Enem exigem que o aluno saiba comparar, interpretar, diferenciar e relacionar períodos históricos, por exemplo, a diferença entre a concepção política de Aristóteles (filósofo grego) e Thomas Hobbes (filósofo do período moderno), o realismo político de Maquiavel, como os conceitos de virtù e fortuna, as teorias contratualistas (pensadores como Hobbes, Locke e Rousseau). É importante verificar ainda a relação entre Antiguidade e Renascença sob a perspectiva política e ética, a relação entre as teorias liberalistas do século 17, os desafios da democracia ontem e hoje, os Estados republicanos gregos, a dinâmica envolvendo as instituições, o papel dos movimentos sociais, o papel da educação e da religião, multiculturalismo, trabalho e cultura.”

Estado de Minas

 

 

 

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