Música no cérebro

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Desiderio de Melo*

“A música, para a maioria de nós, é uma parte significativa e em geral agradável da vida. Não falo da Música externa, a que ouvimos nos nossos ouvidos, mas também da música interna, a que toca na nossa cabeça.”

A citação acima é de Oliver Sacks e faz parte da sua obra mais famosa: Alucinações Musicais e que tem como subtítulo, no Brasil, “Relatos sobre a música e o cérebro”, Editora Companhia das Letras. Nela Sacs relata as suas experiências pessoais e de outros neurocientistas com imagens mentais de pessoas  resultantes de registros da música feitas pelo cérebro.

Ainda na introdução, do capitulo 4, Sacks chama atenção para os trabalhos sobre imagens mentais feitos por Galton, em 1880, “essas são imagens visuais, de modo nenhum a imagens musicais” diz ele. Contudo afirma que se fizermos um levantamento entre nossos amigos poderemos perceber que as imagens mentais musicais apresentam-se em uma gama tão variada quanto as visuais. Havendo pessoas que mal conseguem manter uma melodia na cabeça, enquanto outras podem ouvir sinfonias inteiras na mente.

Outro destaque da obra de Sacs são os estudos feitos por Zatorre e seus colegas, nos anos de 1990. Que usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade da ativação causada por ouvir música. Imaginar música também estimula o córtex motor, e, inversamente a ação de tocar música estimula o córtex auditivo.

A simulação da música, portanto, segundo esses estudos nas observações de Álvaro Pascoal-Leone ativa algumas das estruturas neurais centrais requeridas para execução dos movimentos reais. Ao fazê-lo, a prática mental por si só parece ser suficiente para promover a modulação de circuitos neurais envolvidos nas primeiras etapas do aprendizado das habilidades motoras. Essa Modulação não só resulta em acentuada melhora na execução, mas também parece deixar o individuo em vantagem para aprender a habilidade com menos prática física.

Isto implica em dizer  que a combinação da prática física e mental leva a um aperfeiçoamento da execução mais acentuado  do que a prática física sozinha, fenômeno esse para o qual essas descobertas fornecem uma explicação fisiológica.

De fato as imagens mentais propositais, conscientes, voluntárias envolvem não só os córtices auditivos e motor, mas também regiões do córtex frontal ligadas a escolha e ao planejamento.

Confirmando e ao mesmo tempo ilustrando a tese, Sacs cita a situação vivida por Beetthoven quando este ficou surdo e não pôde ouvir mais música além daquela em sua mente. “ Elas salvaram a vida criativa e a sanidade mental de Beethoven, é possível, até mesmo, que sua imaginação tenha sido intensificada pela surdez, pois, com a remoção da entrada de estímulos auditivos normais , o córtex auditivo pode torna-se hipersensível , com capacidade de imaginação musical intensificada”.

Para finalizar esta resenha sobre os estudos  de Oliver Sacs relativos a imagens musicais, especificamente do capitulo 4, considero também relevante para os estudiosos da música e da musicoterapia, em especial aqueles que trabalham com neurociências e educação musical, ser de fundamental importância a citação que Sacs faz sobre os estudos de Rodolfo Llinás.

Llinás é neurocientista da Universidade de Nova York, tem interesse especial pelas interações do córtex com o tálamo, que a seu ver fundamentam a consciência ou o “Self”, e pelas interações dessas áreas  com os núcleos motores sob o córtex, especialmente os gânglios basais, que Llinás considera cruciais para a produção de “padrões de ação”( para andar, fazer a barba, tocar violino etc.).  Ele dá o nome de fitas motoras para essas incorporações neurais. Llinás concebe todas as atividades mentais – perceber e imaginar tanto quanto fazer – como “motoras”. De súbito conclui: “ouvimos uma música na cabeça ou, aparentemente vindo do nada, surge-nos uma forte vontade de jogar tênis. Isto às vezes simplesmente nos acontece.”

Fantástico não é? Pois é, Sacks também concorda e conclui o capitulo afirmando que nossa suscetibilidade às imagens mentais musicais requer sistemas extremamente sensíveis refinados para perceber e lembrar música, muito além do que qualquer coisa existente nos primatas não humanos. Esses sistemas, aparentemente, são tão sensíveis à estimulação de fontes internas – memórias, associações, emoções – quanto a de música externa. Parecem possuir uma tendência, sem paralelo em outros sistemas perceptuais, a atividade espontânea  e à repetição. Ele, diz vê seus moveis do quarto todos os  dias, os latidos dos cães imaginários e o barulho do transito ,contudo, eles não reaparecem como imagem na mente. Talvez não seja só o sistema nervoso, mas a própria música que contém algo singular – seu ritmo, seus contornos melódicos, tão diferentes dos da fala – e sua ligação singularmente direta às emoções.

* Professor especialista em musicoterapia

Leia mais:

Alucinações Musicais

Autor: Oliver Sacks

Tradução: Laura Teixeira Mota

Companhia das Letras

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