Musicalização infantil na formação do professor: uma experiência no curso de pedagogia da UFSCar

Ilza Zenker Leme Joly *

 

“… Algumas páginas antes o herói  da estória havia declarado que, ao final de sua longa caminhada pelas coisas mais altas do espirito, dentre as quais se destacava a familiaridade com a sublime beleza da música e da literatura, descobria que ensinar era algo que dava prazer igual e, que o prazer era tanto maior quanto mais jovens e mais livres das deformações da deseducação fossem os estudantes”. (Alves: 1994)

 

Introdução

A experiência em ensino e pesquisa com educação musical para crianças tem me oferecido oportunidades de perceber o quanto prazeroso e compensador é para criança e para o professor vivenciar as etapas desse processo de construção de conhecimento. É possível perceber quanto há de alegria nos cantos, danças e jogos da aula de música e notar ainda, a cada dia de trabalho, quanta alegria sente a criança ao ver o professor de música chegar à sua escola porque isso significa que é hora de dançar, cantar, movimentar-se, descobrir novos sons e ritmos e ainda redescobrir a sutileza de cada som de seu ambiente.

Da mesma forma, é possível perceber que, á medida que o professor sente-se envolvido neste processo, ele compartilha com a criança o mesmo prazer em dançar, cantar e tocar. A criança aprende de maneira lúdica e natural e o professor é elemento participante deste processo, que embora trabalhoso, é extremamente prazeroso.

De acordo com SNYDERS (1992), a função mais evidente da escola é preparar crianças para o futuro, para a vida adulta, para vida profissional e para a cidadania. Dessa forma, a escola responde ao desejo do jovem em torna-se “grande”, em participar do poder dos adultos, de iniciar-se nos segredos da vida adulta. No entanto, se a escola é um mundo feito para acolher a criança e responder, de seu próprio jeito, à necessidade de alegria que ela tem, é preciso que professores e alunos mantenham continuamente vivos o objetivo de manter presente a alegria em cada um dos momentos do processo de aprendizagem. Retomando então, os princípios da educação musical, onde os conceitos são ensinados através de atividades lúdicas e prazerosas visando o desenvolvimento global do aluno; é possível introduzir a idéia de lançar mão desses procedimentos em prol do desenvolvimento prazeroso do aluno e da busca da alegria para o professor, nesse processo constante de aprender-ensinar.

É preciso dizer e ressaltar que, enquanto nos países desenvolvidos, ou mesmo em desenvolvimento, o ensino da música na escola é tão importante quanto o ensino de idioma materno, das ciências ou outras disciplinas do currículo escolar, no Brasil o ensino de música ainda é considerado superficial. Infelizmente a educação musical ainda é considerada  como símbolo de status e desconsidera-se o potencial educativo do ensino de música para a formação integral do aluno. Para que esse preconceito seja quebrado e, cada vez mais, um número maior de crianças tenha acesso a música, resolvemos, na universidade Federal de São Carlos, colocar o conhecimento sobre educação musical disponível à serviço do professor em formação de maneira que ele possa ser inserido nas escolas públicas e particulares buscando o desenvolvimento geral da criança. Não importa se esse aluno venha a ser músico. O que interessa é que ele tenha oportunidade de passar pelo processo de musicalização e seja sensibilizado por ele.

Metodologia

O curso de educação musical aplicado à pedagogia tem a duração de 1 semestre, com encontros semanais de 4 horas, nos quais os alunos de pedagogia passam por uma vivencia prática de procedimentos de educação musical que podem ser perfeitamente aplicados em sala de aula. O planejamento do curso inclui atividades de: relaxamento, movimento, som, rítmica, canto, conjunto instrumental e pequenas danças. Depois da vivencia de cada exercício, no qual o aluno de pedagogia participa como se fosse criança, é feito um levantamento dos objetivos da atividade e da sua aplicabilidade no processo de formação da criança. São momentos de reflexão, nos quais esses alunos tem oportunidade de pensar em sua função como professor, discutir diferentes possibilidades de trabalho e aprender formas alternativas de agir em sala de aula.

Os diferentes aspectos da aula

      Canto

      Presente desde o primeiro momento da aula, por meio de uma pequena canção de boas vindas até o último instante, na canção de despedida. A criança é estimulada para cantar todas as canções utilizadas no desenvolver das aulas, de maneira que tenha oportunidades de desenvolver afinação, emissão vocal, percepção auditiva, representações sonoras através da voz e desenvolvimento de linguagens.

      Relaxamento como a matéria prima da música é o som, o desenvolvimento da audição é o objetivo principal. Para escutar, é necessário silenciar-se, concentrar-se à audição. Nesse momento da aula são realizadas atividades de preparação e expressão corporal, concentração, relaxamento, desenvolvimento da imaginação e reconhecimento de elementos da estrutura musical. O aluno passa então, por um processo de sensibilização no qual é desenvolvida sua capacidade de captar o mundo exterior e exteriorizar o mundo sonoro interior. É enfatizada a importância de respeitar a capacidade de expressão da criança, observando e valorizando a sua leitura do mundo.

     Movimento

Essa parte da aula tem como objetivo oferecer oportunidades de aprendizagem no âmbito social, comunicativo e motor; desenvolvendo nas crianças diferentes capacidades, tais como: integração no grupo, cooperação, solidariedade, atenção, comunicação não verbal, expressão corporal, coordenação de movimentos ao andar, saltitar, saltar e movimentar-se livremente, criação de novas ideias, improvisação. Através dos jogos de movimentos, é possível introduzir as crianças no mundo da música e aos poucos ir fazendo com que elas se familiarizem com ele. Com isso elas adquirem uma percepção para os diferentes elementos da música: melodia, compasso, ritmo, métrica, dinâmica, andamento, forma, tonalidade. Nessa parte da aula é enfatizado que o professor não pode esquecer que o movimento deve sempre ser prazeroso para as crianças porque esse é um fator importante para a motivação.

     Som

Nesse item, o processo de desenvolvimento da audição é iniciado através de descoberta do ambiente sonoro onde está inserida a criança. Que sons temos na sala de aula, como eles são (altura, timbre, intensidade, duração), qual a sua distância e direção. Temos como objetivo, nesse momento, auxiliar os alunos a ouvirem de uma maneira mais eficaz. Enfatizamos o fato de que a audição é importante para todas as experiências educacionais e que é preciso aprender a ouvir. Para esse trabalho de som temos uma coleção de atividades em que utilizamos materiais não convencionais. Entre eles: pequenos sinos, pedras, brinquedos infantis, objetos utilizados na cozinha, copos garrafa, etc. Nessas atividades desenvolvemos a capacidade de identificar diferentes sons, reconhecer e reproduzir esses sons com a voz, ordenar os sons segundo parâmetros de altura, duração e intensidade.

      Conjunto instrumental

Os anos de trabalho com crianças tem mostrado o quanto elas sentem prazer em tocar um instrumento. Esse momento da aula é mágico. Por isso, a prática de conjunto instrumental tem como objetivos:

      – Desenvolvimento do entusiasmo e do amor à música.

      – Desenvolvimento de habilidades de percepção auditiva e rítmica, e também habilidades de leitura, que gradualmente, vão sendo introduzidas através de simples acompanhamentos de canções.

      No conjunto instrumental são utilizados instrumentos de percussão e xilofones, que  acompanham canções folclóricas, populares ou peças simples de autores conhecidos( Strauss, Mosart, Bethoven, etc), tocadas ao piano ou utilizando gravações de orquestras famosas em fita cassete ou CDs.

      Danças

Dança, no contexto aqui abordado, significa uma forma de movimentos simples, com orientação coerente com a estrutura da música. São utilizadas danças cantadas, danças folclóricas, populares ou danças infantis, que estimulam a comunicação não verbal entre as crianças que possam ser facilmente compreendidas. Como as danças possuem regras que devem ser observadas, é possível promover, de uma forma lúdica e prazerosa, o aperfeiçoamento da organização, do domínio corporal, da coordenação, do comportamento social e da criatividade. Enfatizamos a importância de o educador lembrar de que a família exerce um grande papel na educação e, nesse sentido, estimulamos os futuros professores a criar oportunidades de danças que integrem a escola, os alunos e seus familiares.

RESULTADOS

     É possível, através do contato com os diferentes grupos de alunos, afirmar que as atividades de educação musical podem ser úteis no processo de formação do professor, de forma a contribuir na sua atuação em sala de aula e também ampliar as oportunidades de desenvolvimento de seu aluno.

    Segundo SCHÖN (1992), estamos atravessando um processo cíclico de reforma educativa, o que significa uma nova tomada de consciência da inadequação da educação. O autor coloca a necessidade de buscar-se novas formas de encarar a formações de professores: uma formação onde se destaca o valor da prática como elemento de análise e reflexão do professor, uma formação contínua baseada na atividade de sala de aula, próxima de problemas reais enfrentados pelos professores e assumindo dimensões participativas, flexível e investigadora. Com base na experiência em sala de aula e nos depoimentos dos alunos que tem frequentado a disciplina, podemos afirmar que a educação musical é um importante para vencer a inadequação do sistema educacional porque, através dela, podemos resgatar o prazer do contato com a arte e a cultura, a alegria da aprendizagem através do jogo e da brincadeira, e desencadear um processo de reflexão baseado em experiências reais e vivenciadas pelo aluno.

*Universidade Federal de São Carlos

Comunicação apresentada no I Encontro Latino – Americano de Educação Musical/ VI Encontro Anual da Associação Brasileira de Educação Musical – ABEM, realizado em Salvador, BA, de 15 a 21 de setembro de 1997.

Observação: o trabalho original contém depoimentos de alunos e professores que confirmam o valor da disciplina, educação musical, e os resultados obtidos na adequação da educação. Podendo ser conferido na publicação Fundamentos da Educação musical, Série 4, Outubro de 1998 da ABEM.

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