Crianças surdas usam a vibração do som para tocar instrumentos musicais

 

BRUNO MOLINERO

Com olhos atentos ao maestro, João Pedro dos Santos, 12, bate no surdo (o maior tambor das escolas de samba) com a precisão de um relógio. Não erra uma só vez.

Assim que o ensaio da banda acaba, eu logo me apresento e falo que gostaria de entrevistá-lo. Só havia me esquecido de uma coisa: João é surdo. Não escuta nada desde pequeno por causa de uma meningite -um tipo de infecção.

João e mais nove garotos da banda Música do Silêncio são deficientes auditivos. Eles são os responsáveis pelo tambores do grupo e dificilmente perdem o ritmo da música, como se pudessem escutá-la.

0320

João   Pedro, 12, e Emily Siqueira, 11, são surdos e participam de uma banda em São   Paulo/

Karime Xavier/Folhapress

“É fácil. Não preciso ouvir. Eu sinto a música aqui dentro”, gesticula João, apontando para o peito.

Uma professora que escuta normalmente funcionou como intérprete entre a reportagem e os garotos.

Isso porque a comunicação entre surdos acontece em libras (Língua Brasileira de Sinais), em que são usados gestos para expressar palavras ou frases.

Emily Siqueira, 11, também faz parte do grupo. Ela nasceu surda e, em 2010, decidiu que queria aprender música. “Gostei de aprender o hino nacional. Primeiro aprendi a letra em libras. Depois senti a música na pele”, conta a menina.

À primeira vista, pode parecer que a música não faz parte do universo silencioso de quem não ouve. Mas nada impede a prática de instrumentos.

“Eles sentem a vibração das canções no corpo”, diz Fábio Bonvenuto, maestro da banda, que é formada por estudantes de escolas municipais de São Paulo. A iniciativa rendeu até um convite para apresentações em Portugal nesta semana.

PANDEIRO

Segundo Saul Cypel, professor da Faculdade de Medicina da USP, a música pode ajudar no desenvolvimento das crianças. “Além de estimular o corpo, ela melhora a autoestima. O deficiente passa a não se sentir estranho.”

Gabriel Vilela, 11, é surdo desde que nasceu. Ele batuca em um pandeiro para mostrar o que aprendeu nas aulas de música no projeto Guri, em Vinhedo (a 79 km de SP). Mas a vitória é outra. “Às vezes, vou sozinho de ônibus para o curso”, diz em libras.

0322

 

Filipe Rocha/Editoria de Arte/Folhapress

Folha de São Paulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.