Protestos podem influenciar votação das reformas no Congresso

sábado, 29 abril, 2017
Cientistas políticos comentam a repercussão das manifestações de sexta-feira
Jornal do Brasil / Felipe Gelani *

Apesar de declarações como a do ministro da Justiça Osmar Serraglio, para quem a greve foi um “fracasso”, especialistas em Ciência Política apontaram que votar a favor das duas reformas neste momento de ebulição social pode ter consequências nas eleições. “Por interesse, eles aprovariam tudo com tranquilidade. Mas existe a preocupação eleitoral”, afirmou o professor de Ciência Política da Unirio Guilherme Simões Reis.

“Os deputados e senadores sabem que votar a favor dessas reformas vai fazer com que eles passem como alguém que está contra a população. Eles sabem que as chances de se eleger despencam. Então, a alta adesão à greve torna muito mais difícil apoiar um corte de direitos dessa dimensão. O custo eleitoral fica alto”, complementou.

Sobre a atuação da polícia durante os protestos, a professora de Ciência Política Clarisse Gurgel – também da Unirio – afirmou que esta é uma estratégia do governo que tem um índice de aprovação muito baixo. “Um governo com 4% de aprovação, sem base de apoio na sociedade, sem legitimidade e sem diálogo com os trabalhadores, tem como estratégia criar um clima de pânico. Este é o único legado da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, o aparato repressor estatal.”

Guilherme comentou também a repressão policial aos manifestantes no Rio de Janeiro, especialmente na Cinelândia, onde houve forte confronto e feridos. “Para o governo, é melhor afastar as pessoas do que permitir mais gente na rua. A mobilização pela greve geral foi muito alta, não só de adesão, mas de apoio. Se antes a adesão era muito fraca, no caso do golpe no ano passado – até pela impopularidade da ex-presidente Dilma – agora é diferente. É muito mais concreto para os trabalhadores entenderem que eles estão perdendo seus direitos, que não vão conseguir se aposentar”, analisou.

>> Greve geral: OAB critica ação da PM em protesto na Cinelândia

O professor Guilherme também lembrou a questão das faixas deixadas na frente das vidraças quebradas dos bancos, com dizeres que apontam a inadimplência das instituições, como dívidas milionárias de não pagamento de impostos. “Acho a estratégia das faixas inteligentíssima. Essa é uma forma inteligente de diálogo com a população, pois deixa claro os motivos dos manifestantes ao quebrar as vidraças dos bancos”, afirmou.

O professor comentou também o posicionamento do presidente Michel Temer, que criticou o movimento afirmando que ele atrapalhou o “direito de ir e vir”. “Qualquer argumento de violação à lei é hipócrita, pois ele fez um golpe de estado. Não acredito que houve excessos, não faz sentido uma greve que não incomode ninguém. Greve é uma forma de pressão. É óbvio e fundamental que os transportes parem. Greve é para pressionar, é um instrumento dos trabalhadores para fazer valer seus direitos. Se o presidente afirmou isso e lamentou a questão do direito de ir e vir, é porque a greve foi um sucesso”, concluiu.

Para Clarisse, a sexta-feira da greve geral indica um retorno da política na sociedade civil. “Agora a adesão à greve extrapolou a vanguarda. Escolas particulares e tribunais de Justiça pararam. Além de categorias históricas na luta e que estavam apáticas como a dos rodoviários. Quando digo, porém, que isto não basta, é porque o governo e o grande empresariado precisam sentir que o povo não resiste apenas, mas também tem força para se insurgir. Os poderosos precisam sentir que correm risco de perder o poder.”

E ela concluiu: “Para isto, os que resistem precisam se organizar coletivamente. Só assim, a ação conjunta assume uma direção estratégica, rumo ao projeto de país desejado pelos que trabalham.”

* do projeto de estágio do JB


Mídia internacional destaca protestos “de alcance nacional” contra reformas

sábado, 29 abril, 2017
Jornais estrangeiros lembram que manifestações são impulsionadas pelos escândalos na política

O jornal destacou que os sindicatos marcharam em resistência às medidas de austeridade propostas pelo governo do presidente Michel Temer, que, segundo o jornal, está “cheio de escândalos”.

>> Brazil Gripped by General Strike Over Austerity Measures

O árabe Al-Jazeera apontou que a greve contra as medidas do presidente Temer foram em âmbito nacional, ressaltando a posição dos sindicatos de que a greve foi um sucesso. E apontou também a adesão de milhões de trabalhadores de setores chave, como operários dos ramos automobilísticos, do petróleo, professores, carteiros e bancários.

>> Anti-Temer strike paralyses major cities in Brazil

O jornal árabe Al-Jazeera afirmou que a greve contou com a aderência de milhões de trabalhadores
O jornal árabe Al-Jazeera afirmou que a greve contou com a aderência de milhões de trabalhadores

A agência de notícias Reuters lembrou que os sindicatos convocaram a greve para dar voz à fúria contra os esforços de Temer de empurrar as medidas de austeridade no Congresso, afirmando que são projetos de lei que enfraqueceriam as leis trabalhistas e realizar cortes ao “generoso” sistema de aposentadoria brasileiro.

Já a britânica BBC lembrou que é a primeira greve geral que atinge o país em duas décadas. E ressaltou que o país está passando por um escândalo de corrupção conectado a muitos políticos importantes, dando mais combustível à insatisfação pública.

>> Brazil hit by first general strike in two decades

O jornal alemão Deutsche Welle, com a manchete “Brasil envolvido em uma greve de alcance nacional”, também apontou o envolvimento do governo brasileiro em escândalos de corrupção. “Quase um terço de seu gabinete e aliados no Congresso estão sob investigação por um grande escândalo que revelou níveis absurdos de corrupção no governo.

>> Brazil snarled by nationwide strike, demonstrations

Com a chamada “Uma greve geral desafia as reformas do governo brasileiro” o espanhol El País apontou que a greve encontrou “apoio inesperado para além do âmbito tradicional da esquerda”.

>> Una huelga general desafía las reformas del Gobierno brasileño