Quero um vice da produção, ligado ao Sudeste do País, diz Ciro

sexta-feira, 27 abril, 2018

Jornal do Brasil

Ciro ainda falou sobre o trio de formuladores econômicos de seu programa de governo – Mauro Benevides Filho, Nelson Marconi e Mangabeira Unger -, defendeu a revogação da reforma trabalhista e se comprometeu com a da Previdência. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Quem o sr. imagina para vice?

Eu gostaria de escolher alguém da produção ligado ao Sudeste brasileiro, Minas Gerais, São Paulo.

Já tem nomes?

Tem nomes.

Josué Gomes da Silva, da Coteminas, é um deles?

É sim, com certeza. Somos amigos há anos. Fui amigo do pai dele, José Alencar. Eu já disse a ele: se quiser, é dele.

Ex-ministro defende revogação da reforma trabalhista, “uma aberração selvagem”

O sr. tem conversado com o ex-prefeito Fernando Haddad. Há chance de aliança com o PT?

É possível e até desejável, mas muito improvável. Nesse momento existem variáveis pendentes de definição. Do ponto de vista do PT, a mais grave, e eu tenho que respeitar isso com toda dignidade, é o momento que eles estão vivendo. Seu principal líder preso e eles constrangidos a uma solidariedade que ainda afirma a candidatura do Lula, mesmo preso e inelegível. Olho com respeito o tempo do PT, mas toco minha bandinha.

Até onde vai essa solidariedade? A bandeira ‘lula Livre’ vai fazer parte da sua campanha?

Minha solidariedade pessoal deriva de um fato histórico. Não conheci Lula pela televisão. É um velho camarada de mais de 30 anos, com quem já tive discordâncias, mas trabalho junto há mais de 16 anos. Fui ministro dele. Dói no meu coração ver um ex-presidente que fez tanto bem ao País preso. A política, entretanto, tem uma crueldade. Nossa responsabilidade é com o futuro de 206 milhões de pessoas. Minha solidariedade não me tira a disciplina de produzir uma alternativa para o Brasil, independentemente do destino do Lula e do PT.

Mas o sr. vai levar a bandeira do ‘Lula Livre’ para a campanha?

Eu gostaria de ver o Lula livre dentro dos mecanismos da democracia e do estado de direito. Não me parece ser a providência mais razoável fazer um acampamento com palavras de ordem insultando o Judiciário às vésperas do julgamento. Das duas uma: ou você confia nas instituições e recorre a elas para corrigir injustiças ou não confia.

É a favor da revisão da possibilidade de prisão em 2ª instância?

O mundo civilizado inteiro garante apenas dois graus de jurisdição para crimes comuns. É muito raro que se dê a um julgamento de crime comum quatro graus de jurisdição. O correto era corrigir a distorção institucional que, hoje, garante quatro graus de jurisdição.

Como avalia decisão do PT de manter a candidatura do Lula, mesmo como ele preso?

Há limite para isso. É preciso respeitar o tempo do PT. Acredito que o PT vai ter candidato próprio e não vai convergir em uma unidade no primeiro turno.

Como avalia o fator Joaquim Barbosa?

É a novidade do momento. Ele entra com a biografia do juiz do mensalão. Esteve por um ano no horário nobre da Globo esgrimindo decência e moralidade, que é uma grande demanda. A mim me parece que não basta ser decente e dar exemplo de combate à corrupção. É preciso responder à questão da saúde, da educação e da violência.

Teme que Barbosa ocupe espaço na centro-esquerda?

Não posso temer isso, pelo contrário. Tem um ditado no Ceará que diz: quanto mais cabra, mais cabrito. Não me sinto incomodado com a presença de um homem como Joaquim Barbosa ou de uma mulher como a Marina (Silva), mas não vou me omitir de denunciar o fascismo de uma candidatura ‘bolsaloide’. Tenho o dever de proteger nossa nação dessa coisas que na Alemanha deram no Hitler.

Que reformas o sr. defende, quem será o ministro da Fazenda?

Antes que meu patrão, o povo brasileiro, me dê a tarefa, não posso adiantar ministro. Mas tenho alguns nomes que estão me ajudando. Três nomes que estão coordenando o programa. Mauro Benevides Filho, ex-secretário de Fazenda do Ceará. Trabalha comigo há muitos anos. O outro é o professor Nelson Marconi, da FGV de São Paulo. Ele coordena o programa como um todo. E há uma figura polêmica para quem não o conhece profundamente, Mangabeira Unger.

O que pretende fazer sobre a reforma trabalhista?

Não vou para cima do muro. A reforma trabalhista tem que ser revogada pura e simplesmente. Esta representa uma aberração selvagem.

E a reforma da Previdência?

O Brasil não pode ter medo de se reformar.

O sr. defende algum tipo de privatização?

O Brasil precisa um projeto nacional de desenvolvimento. A privatização deve ser uma ferramenta. Mas como pode o Brasil imaginar privatizar a Eletrobrás? Para mim é um crime.

Há quem se preocupe com o temperamento do sr. durante a campanha.

Sou o que sou, um indignado. Fui criado a maior parte da minha vida em escola pública no interior do Ceará. Tem colegas meus que morreram em uma prisão. Se expresso com um pouco mais de calor a minha indignação, ok, são essas as manchas do meu paletó.

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Temer diz ser alvo de ‘mentiras’ e manda apurar ‘vazamentos irresponsáveis’

“Se pensam que atacarão minha honra, da minha família e vão ficar impunes, não ficarão sem resposta”

O presidente Michel Temer fez na manhã desta sexta-feira, 27, uma enérgica defesa pessoal das acusações de que tem sido alvo na investigação sobre um suposto recebimento de propina para a assinatura de decreto para o setor portuário. “Só um irresponsável mal-intencionado teria a intenção de colocar a minha família e meu filho de 9 anos como lavadores de dinheiro”, disse Temer, num trecho do pronunciamento, de 15 minutos, transmitido pela TV oficial do governo, a NBR.

O presidente não citou nominalmente pessoas ou veículos de comunicação, mas estava claramente se referindo a uma reportagem publicada nesta sexta pelo jornal “Folha de S.Paulo” informando que, seis meses após a abertura de inquérito, uma das principais suspeitas dos investigadores da Polícia Federal é que ele tenha ocultado bens “lavando” dinheiro de propina no pagamento de reformas em imóveis de parentes e dissimulado transações imobiliárias em nome de terceiros.

Temer se disse alvo de “vazamentos irresponsáveis” e afirmou que vai pedir a apuração disso ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann

Temer não criticou jornais nem jornalistas. Preferiu voltar suas baterias para os responsáveis pela investigação policial. “Vejo uma coisa curiosa, quando a minha defesa pede acesso aos autos do inquérito, a resposta é sempre que as diligências estão sendo feitas e que é sigiloso. Como é que a imprensa consegue essas informações? Eu duvido que a imprensa vá de madrugada, sorrateiramente, ter acesso a esses dados. Alguém vaza esses dados e a imprensa legitimamente acaba por divulgá-los. É uma perseguição criminosa disfarçada de investigação, o que passou a ser comum desde o primeiro momento”, disse.

De acordo com a reportagem, Marcela Temer e o filho Michel seriam donos de alguns dos imóveis supostamente usados para esconder patrimônio obtido ilegalmente. O inquérito da PF investiga se o presidente recebeu, por intermédio de seu amigo, o coronel João Baptista de Lima Filho, pelo menos R$ 2 milhões de propina em 2014.

Temer abriu o pronunciamento dizendo querer protestar “contra mentiras lançadas” à sua honra. E salientou que passará a responder diretamente a esse tipo de acusação.

“Não se trata de mentiras contra minha posição funcional, é contra minha honra. Mentiras que atingem minha família e meu filho de 9 anos de idade. Eu trabalho há quase 60 anos, advogado, professor, procurador, presidente da Câmara, vice e agora presidente. São quase 60 anos de salários, honorários recebidos absolutamente dentro da lei e devidamente declarados nas várias declarações de Imposto de Renda. Não tenho casa de praia, no campo, e nem apartamento em Miami. Aqui obedeço o teto da minha aposentadoria e ganho um complemento que chega a R$ 2 mil. E só. Qualquer contador, professor de matemática, consegue ver que, ao longo do tempo, consegui recursos para comprar e reformas imóveis.”

Durante a fala, convocada de última hora no Salão Leste do Palácio do Planalto, minutos antes da cerimônia de recepção ao presidente do Chile, Sebastián Piñera, Temer não disfarçou a irritação. Por várias vezes, deu pequenos socos no púlpito de onde fazia o pronunciamento. “Em que mundo estamos? É incrível, é revoltante, é um disparate!”, reclamou.

Repetindo o que já havia declarado quando surgiram as denúncias de envolvimento em irregularidades no caso dos portos, Michel Temer reiterou que não irá renunciar. “Se pensam ilusoriamente que vão me derrubar, não irão conseguir. O ataque é de natureza moral. Se pensam que atacarão minha honra e ficarão impunes, não ficarão sem resposta. Vou sugerir a (Raul) Jungmann (ministro da Segurança Pública) que apure como se dão vazamentos irresponsáveis.”

Por fim, Temer reiterou que mantém firme a estratégia de defender o seu legado na Presidência – que disse não saber quando irá deixar. “Sei me defender, especialmente defender a minha família e meus filhos. Não posso sair da Presidência, não sei quando, para carregar essa pecha que tentam me imputar a todo momento.”