Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis ( Parte I)

 

 

Na Bahia, onde o Brasil começou, todas as transformações políticas, econômicas e sociais são lentas. A revolução industrial na Bahia só chega com a década de 50 do século XX. No aspecto econômico a dependência da exportação de produtos agrícolas tem suas origens na produção artesanal da cana de açúcar. As principais características desse sistema de produção são o latifúndio, o monopólio e o emprego de mão de obra escrava. O cacau sucedeu ao açúcar, o senhor de engenho virou coronel. A mobilidade social é lenta e a concentração da renda persiste ainda no século XXI. Acordos e acomodações impedem as transformações na política, no poder judiciário e na ascensão social da maioria esmagadora da população. Embora a sua população tenha a predominância de negros e mestiços prevalece à hegemonia dos brancos nos poderes constituídos.

Nesses dias que antecede há mais um 13 de maio onde a população negra tem muito pouco a comemorar o blog do Prof. Desiderio pública e comenta uma série de textos de pesquisadores importantes da Bahia e do Brasil que dedicaram parte de suas vidas para tentar explicar a história do Brasil e da Bahia, com suas contradições e possibilidades. (ProF. Desiderio)

Economia Baseada no Trabalho Escravo

      Economia da província da Bahia permaneceu baseada no trabalho escravo ao longo de 88 anos do século XIX. Era uma economia agrária e dependente da economia internacional dominante, o capitalismo mercantil migrando para capitalismo industrial. Comparada à do período colonial, registra-se que diversificou a sua pauta de exportação e ampliou as suas atividades mercantis.

     Produzia e exportava açúcar, fumo, diamantes, café, couros, aguardente, cacau e algodão. Dos anos de 1860 em diante passou a exportar charutos de fabricação artesanal. Em menor importância, em quantidade e valor, também entregava ao mercado externo arroz, cabelos e crinas de muares, chifres de boi, coquilhos, farinha de mandioca, farinha de araruta, ouro em pó, piaçava, prata em barra e em forma de pinha. A sua marca foi a capacidade de adaptar-se às novas exigências e compulsões da economia internacional, mas sempre no sentido de maior dependência.

O cacau aparece ágil a partir dos anos de 1830. Apesar de vários sinais de declínio, o açúcar e o fumo se mantiveram em destaque. Não melhoravam em qualidade e técnica de produção, mas os seus proprietários estavam no poder. De 603 engenhos de açúcar existentes na Bahia em 1834, somente 46 utilizavam vapor d’água como energia. Quarenta e um anos depois, em 1875, eram 282 no total de 892. Todos os demais continuavam moendo à força hidráulica ou tração animal e cozendo a “ fogo nu”. Seguindo o exemplo do governo imperial, ao final dos anos de 1860, o governo da província da Bahia tomou a responsabilidade de construir seis engenhos centrais, o primeiro dos quais foi o Engenho Central da freguesia de Bom Jardim ( Usina Bom Sucesso), inaugurado em janeiro de 1880.

O café era um produto de exportação em ascensão no mercado internacional até mesmo em preço. A descoberta do diamante, em 1843, seguida de sua exploração comercial criou alguma atividade econômica na distante região das Lavras e colocou na pauta de exportação da Bahia um produto que lhe deu efêmera sensação de riqueza.

Possuindo uma economia de exportação de produtos primários, a Bahia se manteve importadora de artigos manufaturados. Importava tecidos de algodão, linho, seda, lã, carnes, vinhos, carvão-de-pedra, farinha de trigo, ferragens, moedas, peixes em conserva, bacalhau, calçados, bebidas, louças e vidros, chapéus, papel, manteiga, sal e máquinas. Em ordem de importância, os países que mais exportavam para a Bahia eram Inglaterra, França, Alemanha, Portugal e Estados Unidos. Em 1873, a Bahia importou da Inglaterra produtos no valor de 13.340:290$547 ( treze mil duzentos e quarenta contos, duzentos e quarenta mil e quinhentos e quarenta e sete mil reis). Nesse mesmo ano, importou da França 1.969:684$271 ( um mil novecentos e sessenta e nove contos, seiscentos e oitenta e quatro mil e duzentos e setenta e um réis).

Comércio

          Compreende-se que o domínio e a influência das casas comerciais inglesas e francesas fossem grandes na cidade do Salvador. Tinham a vantagem básica de pertencer a súditos das duas grandes potências industriais da época, Inglaterra e França. Podiam contar com centros industriais eficientes, navios mercantes mais seguros e rápidos e taxas de cabotagem menores. Algumas dessas eram: Richard Lattan & CIA., Meuron & CIA., Scoll & CIA., Laporte & CIA., Humber & CIA., Camer Frey & CIA., C.F. Keller & CIA., C. Cahn & CIA., Dutton Brothers, Eduardo Benn & Sons, H.P. Perry & CIA., Wilson Sons & CIA., Heinicken Meyer & CIA. As casas comerciais portuguesas ficaram descapitalizadas por causa das quedas de influência que sofreram no Brasil de 1822 a 1838. Recuperaram-se com o comércio proibido de escravos africanos no período de 1838 a 1850. Todos os grandes comerciantes foram negreiros, portugueses e luso-brasileiros. Estrangeiras ou não , todas as casas comerciais – portuguesas, inglesas, francesas, suíças, e alemãs – relacionavam-se com os proprietários e lavradores pelo sistema de consignação. Forneciam recursos para a compra de escravos, maquinas e instrumentos para os engenhos e as lavouras ( enxadas, foices, facões etc.), fornecendo também todas as utilidades. O “tomador” ou devedor consignatário entregava açúcar, o fumo, os diamantes, o café, os couros etc. a preços inferiores ao mercado e oneravam-se com o pagamento de juros de 2 a 3% ao mês. Muitos se endividaram e perderam suas lavouras, seus engenhos e suas terras.

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora Unesp, 2006.

 

 

 

 

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