Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis (Parte VI)  

 

A Revolução de 1930

 

A revolução de 1930 foi a saída que as classes sociais dominantes no Brasil encontraram para superar a estagnação do sistema oligárquico que lhes servira nos últimos 41 anos. Esgotara-se nas suas contradições econômicas, sociais, políticas e institucionais, acrescidas do egoísmo e inconsciência de grupos, facções e chefes políticos que insistiram nas fórmulas e comportamentos do Império agrário-mercantil-escravista nas condições do capitalismo industrial emergente no país e da crise do capitalismo mundial em depressão econômica.

Havia insatisfação nas camadas sociais médias dos grandes centros urbanos, levantes militares, conspirações permanentes de políticos e militares, repetidas greves de operários industriais e trabalhadores, estados ameaçando separar-se do conjunto federativo, e coronéis fortalecidos nos seus municípios e áreas de domínio. Por conseguinte, a revolução se apresentou como única, conquanto dramática e talvez desesperada solução. Antes de optarem pela revolução, os que visualizavam ainda experimentaram o chão esturricado de mais uma eleição presidencial, a de março de 1930, com a sedução da campanha da Aliança Liberal divulgando as palavras de ordem de combate às oligarquias, voto universal e secreto, leis trabalhistas e reforma agrária gradativa.

A última eleição presidencial da Primeira República repetiu as fraudes eleitorais de sempre. Portanto, voltou a revolução. Novamente se movimentaram políticos e militares que a consideraram solução já nos finais de 1927 e começo de 1928. Com efeito, em abril de 1928 ocorreu em Buenos Aires o encontro de Paulo Nogueira Filho, do Partido Democrático (São Paulo), e Francisco de Assis Brasil, do Partido Libertador (Rio Grande do sul), com o capitão Luís Carlos Prestes, líder aceito pela maioria dos civis e militares que haviam lutado na revolução de 1924 em São Paulo e participado da Coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes. Depois aconteceram outros encontros. Em fins de 1929, o capitão Prestes, conversou com Getúlio Dorneles Vargas, presidente do estado do Rio Grande do Sul e candidato da Aliança Liberal à Presidência da República. Compromissos foram estabelecidos, mas já era evidente que o jovem comandante da Coluna se distanciava dos políticos e de alguns de seus antigos companheiros: Juarez Távora, João Alberto, Miguel Costa, Isidoro Dias Lopes, Osvaldo Cordeiro Farias. Em maio de 1930, Prestes divulgou manifesto rompendo com “aquela revolução”, conforme escreveu, indicando assim que haveria outra sob o seu comando. No entanto, a conspiração político-militar se manteve.

A conspiração na Bahia

Não fosse pela atividade conspirativa de alguns poucos militares e civis obscuros, a revolução de 1930 teria chegado a Bahia como surpresa ainda maior. Comprometido com o governo Washington Luís, o grupo político há seis anos dominante na Bahia era composto pelo ex-governador Francisco de Góes Calmon e seus irmãos Antônio e Miguel Calmon du Pin e Almeida, correligionários, aderentes e os aliados mais próximos, os saudosistas do severinismo, os dissidentes do seabrismo e Otávio Mangabeira, na época ministro do Exterior. Esse grupo não só apiou a candidatura oficial do governador do estado de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque, à Presidência da República, como negociou a Vice-Presidência para o governador Vital Henriques Batista Soares. Depois do acerto, Vital Soares renunciou ao cargo, logo ocupado por um aliado de confiança, o ex-seabrista e presidente do Senado Estadual, Frederico Augusto Rodrigues da Costa.

Em razão dessas combinações típicas do sistema oligárquico brasileiro, os Calmons e as facções e indivíduos no poder fecharam o estado da Bahia para a campanha da Aliança Liberal. Fizeram-no com tão aparente sucesso que o apoio do velho chefe Seabra à chapa aliancista em nada abalou a certeza Calmonista no resultado das urnas fraudadas. Ou seja, a esmagadora vitória eleitoral da Júlio Prestes-Vital Soares.

No entanto, conspirava-se. Em fevereiro de 1930 passaram por Salvador os tenentes Juracy Magalhães, Jurandir Bizarria Mamede e Agildo Barata Ribeiro. Vinham transferidos do 1º RI, no Rio de Janeiro, para o 22º BC na cidade da Paraíba ( atual João Pessoa). No navio que os transportava, viajavam também os aspirantes a tenente Humberto de Souza Melo e João Costa. Com estes, a bordo, e com os tenentes Joaquim Ribeiro Monteiro e Geminiano Hanequim Dantas, no porto da cidade do Salvador, os tenentes Juracy, Mamede e Barata conversaram sobre revolução.

Tinham que transmitir boas perspectivas. Antes de aceitar a transferência para a Paraíba, Juracy Magalhães, que era cearense e filho de uma família ligada aos Távoras, estivera na fortaleza de Santa Cruz, onde o capitão revolucionário Juarez Távora se encontrava preso. Escutara de Juarez que o capitão Prestes lhe ordenara deslocar-se para a Paraíba a fim de organizar a revolução nesse estado e em Pernambuco. Isso significava a abertura de novo polo revolucionário, que se uniria aos existentes: Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e Belo Horizonte, Minas Gerais.

A partir desse encontro e das conversas que se seguiram, os tenentes Joaquim Ribeiro Monteiro e Hanequim Dantas e os aspirantes a tenente Humberto de Melo e João Costa formaram, com o jovem médico Eduardo Bizarria Mamede, irmão do tenente Mamede, o núcleo de conspiradores que se ampliou com as adesões do médico Átila do Amaral e dos engenheiros Alípio Viana e Leopoldo Amaral, este ligado a J.J Seabra e presidente do Comitê da Aliança Liberal na Bahia.

A 28 de fevereiro Juarez Távora escapou da fortaleza de Santa Cruz. Fugitivo disfarçado e usando a identidade de Olavo Silva, engenheiro, saiu de Campos, no Rio de Janeiro, para Pirapora, em Minas Gerais, onde embarcou para Juazeiro, na Bahia. A 9 de abril estava na cidade do Salvador, embarcando para Maceió em hidro avião. De Maceió foi de trem para Recife. Hospede dos irmãos Caio e Carlos de Lima Cavalcanti, Juarez Távora saiu do Recife para a casa do Tenente Juracy Magalhães na cidade da Paraíba. De onde mais estivesse homiziado, o capitão Juarez Távora costurou uma rede de conspiradores que cobriu os estados do Nordeste e alcançou Maranhão e Pará.

O médico Eduardo Bizarria Mamede do Nordeste viajou para a Paraíba para levar pessoalmente informações do núcleo baiano. Em todas esteve com Juarez Távora. Depois do manifesto do capitão Luís Carlos Prestes desligando-se da conspiração, Juarez Távora cuidou de desfazer as possíveis consequências dessa ruptura mantendo correspondência com o tenente Monteiro. Enviou-lhe o documento Instruções às chefias locais, um texto com raciocínios e argumentos que deviam convencê-lo e aos conspiradores que a nova posição política do capitão Prestes não significava o fim da revolução, mas só a conveniência da reavaliação de forças para a sua continuidade. Também remeteu o plano sistematizado dos levantes militares já previstos para começarem “as duas da madrugada de um dia predeterminado”, seguindo-se “a imediata organização de colunas com a missão de conquistar noutras cidades e estados posições governistas” (carta maio de 1930).

A revolução começou na tarde de 3 de outubro em Porto Alegre e Belo Horizonte. Por um atraso de comunicação, o levante da guarnição militar da Paraíba só se iniciou na madrugada do dia 4. Vitorioso, no mesmo dia 4 movimentou tropas para apoiar o levante iniciado no Recife.

Juracy Magalhães, imagem Google/ CPDOC FGV

 

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora UNESP, 2006.

Não deixe de ler a Parte VII, continuação ( publicação na quarta-feira (30/05/2018). Aqui no Blog do Prof. Desiderio

 

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