Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis (Parte VII)

 

O quebra-bondes

     Enquanto a revolução ganhava proporções no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, e começava a se consolidar no Recife, na tarde de 4 de outubro explodiu na cidade do Salvador a manifestação espontânea denominada quebra-bondes. Sem que exista qualquer indício de ligação com conspiradores baianos, desconhecendo-se também como surgiu e quais seus dirigentes, é aceitável concluir que correspondeu à tensão política no país e ao imobilismo do governo de Frederico Costa e das lideranças baianas, estas divididas, como sempre. Sob a aparente indefinição dos responsáveis pelo Estado – O Executivo, o Legislativo, o Judiciário, as instituições públicas e privadas, os jornais oficiais e oposicionistas, os políticos e as personalidades -, o inesperado das notícias a respeito de levante militares que conduziam o país para uma guerra civil, mais o decreto de estado de sítio, suspendendo todas as garantias constitucionais, entende-se que a população tomasse a iniciativa de atos violentos disparados pela insatisfação com o recente aumento de preço das passagens nos bondes, elevador Lacerda e planos inclinados Gonçalves e do Pilar. Pertenciam a uma empresa estrangeira, Companhia Linha Circular de Carris Urbanos, subsidiária da Eletric Bond and Share Company.

É significativo que os primeiros protestos tivessem origem no grupo de populares que teria visto a bandeira nacional servindo de tapume para obras dos fundos do prédio da Circular. Um popular teria gritado:

– Os gringos estão fazendo da Bandeira do Brasil porta de latrina!

Em contados minutos, uma verdadeira massa humana se espalhou pela Cidade Baixa, ganhou as ladeiras da Misericórdia, Montanha e da Conceição, e surgiu no centro da Cidade Alta quebrando e incendiando ônibus (84 bondes foram destruídos nas seis horas de manifestação).

Houve um ataque ao edifício A Tarde, por causa do apoio que o jornal de Simões Filho dera ao aumento dos preços das passagens nos bondes, elevador e planos inclinados.

Descendo para a Barroquinha, manifestantes depredaram as oficinas e garagens da Circular localizadas nas hortas e em Santana. Outros manifestantes invadiram os escritporios da Companhia Circular no bairro da Sé e destruíram suas instalações. Máquinas de escrever e papéis foram jogados para a rua. Os prédios da Prefeitura Municipal e da Chefia de Polícia foram apredejados. Contudo, porque se dispersou para diversos pontos da cidade (chegou ao barracão da Companhia Circular no bairro da Graça), a manifestação foi afinal reprimida pela PM, ocorrendo mortos e feridos. Em número desconhecido.

 

A revolução alcança a Bahia

O dia 5 de outubro amanheceu com a notícia da nomeação do executor do estado de sítio na Bahia. Era o general Santa Cruz Pereira de Abreu, que iniciara sua missão embarcando no Rio de Janeiro no navio comandante Capela. Convencido da disposição legalista da maioria dos oficiais de alta patente no Rio de Janeiro e são Paulo, sentindo-se forte o bastante para derrotar a revolução, o governo Washington Luís decidiu estabelecer na Bahia a barreira militar destinada a deter as forças revolucionárias já vitoriosas na capital e no interior da Paraíba.

Havia na Bahia situações conflitantes. Primeiro, no governo baiano.

O governador eleito para suceder Vital Soares, Pedro Lago, ainda não tomara posse. O governador em exercício Frederico costa, vacilava e continuaria vacilando nas decisões contra os revolucionários, nisso se limitando a confiar a Polícia Militar e a apelar para os coronéis da chapada diamantina e do São Francisco.

O núcleo de oficiais revolucionários limitava-se a acompanhar os acontecimentos, mas estava certo de contar com simpatizantes em número suficiente para aderir a revolução em caso de combate com os batalhões que desciam da Paraíba. Do seu posto de comando na cidade da Paraíba, Juarez Távora determinara duas colunas em direção ao sul do país, uma pelo litoral, sob o comando do tenente Juracy Magalhães, e outra pelo interior, comandada pelo tenente Jurandir Mamede. As força comanda- das por Juracy Magalhães desceram para a Bahia em caminhões e automóveis, em montarias ou a pé. Saíram de Pernambuco em marcha batida, entraram em Alagoas e alcançaram o São Francisco no porto fluvial de São Brás. Aí embarcaram em barcos e canoas e desceram o Rio até Propriá. Tomaram essa cidade sem luta e prosseguiram para Aracaju.

Juarez Távora mandou um avião teco-teco sobrevoar a capital de Sergipe e espalhar volantes intimando o governador Manuel Dantas a deixar o governo. Manuel Dantas obedeceu. Ao mesmo tempo, o 28º BC aderiu à revolução. Logo em seguida, o capitão Juarez transferiu-se para Aracaju com o seu comando revolucionário e dessa cidade passou a comandar operações militares e políticas em desdobramentos.

No comando geral das forças governistas, o general Santa Cruz mandou concentrar tropas na cidade de Alagoinhas, importante entroncamento ferroviário. Tudo quanto conseguira mobilizar na Bahia contra a revolução terminara formando um aglomerado heterogêneo de mercenários ( capangas dos coronéis da Chapada e do São Francisco), Polícia Militar e o 19º BC em boa parte ganho pela conspiração revolucionária. Contava, no entanto, com peças de artilharia e oficiais do Exército competentes.

Deslocado para a cidade de Esplanada, o 19º BC foi cercado no dia 20 pelas forças revolucionárias que se dirigiam para Alagoinhas. No comando da vanguarda, o tenente Agildo Barata contatou os tenentes Monteiro e Hanequim. Com ação desses oficiais, mais a coerção militar exercida pelo tenente Agildo Barata, o 19º BC aderiu á revolução. Por conseguinte, ao contrário de balas vivas à revolução.

Prosseguindo para Alagoinhas, na tarde de 24 os batalhões dos tenentes Juracy Magalhães e Agildo Barata encontraram uma situação inesperada: as forças governistas acenavam bandeira branca. Só então souberam que uma Junta Militar, composta por dois generais e um almirante (generais Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e almirante Isaías de Noronha), depusera o presidente Washington Luís e ordenara cessar-fogo em todas as frentes. A revolução terminava antes de experimentar a radicalização de guerra civil.

Em outra realidade, dezenas de manifestantes dirigiram-se para o prédio da Secretaria de Segurança Pública na praça da Piedade e exigiram a libertação do padre Alfredo de Arruda Câmara. Ele acompanhava a coluna comandada pelo tenente Juracy Magalhães e tomara a iniciativa de sair de Alagoinhas para a cidade do Salvador com o propósito de negociar o fim da luta. Fora detido como espião. Os manifestantes exigiam que o libertassem, o que efetivamente sucedeu, mas somente depois da PM tirotear o povo reunido na porta da Secretaria da Segurança. Disso resultaram mortos e feridos. Quase no mesmo instante o senador estadual Wenceslau Guimarães chegou ao Palácio Rio Branco e se declarou governador em exercício. Antes que efetivasse qualquer ato administrativo, o major Custódio dos Reis Príncipe apresentou-se como representante do governador reconhecido pela Junta Militar, o comandante da 7ª RM, coronel Ataliba Osório só ocupou o governo na manhã de 25.

Na tarde desse dia, os batalhões revolucionários chegaram à cidade do Salvador e foram recebidos com ovações e manifestações de apoio. Encontraram os tenentes Juracy Magalhães, Joaquim Monteiro e Hanequim Dantas conversando com o Arcebispo dom Augusto Álvaro da Silva sobre que a revolução colocaria na Bahia. No dia seguinte, Juarez Távora desembarcou em Camaçari do avião que o trouxe de Aracaju. Tinha dois problemas para decidir. Um nacional: a Junta Militar formada no Rio de Janeiro. E o outro local: J.J. Seabra, que reivindicava o governo da Bahia em retribuição à sua participação na campanha da Aliança Liberal.

Para o problema imediato ocorreu o veto dos jovens militares mais desejosos de mudanças que não permitissem a continuidade ou retorno de quantos políticos vinham combatendo desde de 1922, J.J. Seabra inclusive. Para o nacional, Juarez Távora defendeu a destituição da Junta Militar e a entrega do poder a um governo ditatorial sob a presidência do chefe civil da revolução, Getúlio Dorneles Vargas. Certo de que a sua presença no Rio de Janeiro era decisiva, apressou a sua passagem pela Bahia e viajou de avião para a capital do país levando o tenente Juracy Magalhães. Por telegrama, enviado do Rio de Janeiro, o capitão Juarez Távora nomeou Leopoldo Afrânio Bastos do Amaral, engenheiro e professor da Escola Politécnica, para governador da Bahia.

Foto Google: Gétulio Vargas entre Juarez Távora e o interventor da Bahia Juracy Magalhães

 

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora UNESP, 2006.

Não deixe de ler a Parte VIII, continuação ( publicação no sábado (02/06/2018). Aqui no Blog do Prof. Desiderio

 

 

 

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