Exposição: ‘Das galés às galerias: representações e protagonismos do negro no acervo do MNBA’

terça-feira, 5 junho, 2018

Jornal do Brasil/ MÔNICA RIANI, 

Frans Post, Jean-Baptiste Debret, Newton Cavalcanti, Djanira, Inês Correia da Costa, Emanoel Araújo, para destacar alguns dos autores, assinam as obras condutoras de um discurso visual amplificado, do século XVI aos dias atuais. As peças formam os três módulos que servem de bússola para orientar o visitante no circuito da exposição, balizada por um conselho de curadores, que reuniu antropólogos, sociólogos e historiadores, sob a coordenação da museóloga Cláudia Rocha.

Da pintora mineira Maria Auxiliadora está sendo exibida ao público do museu a tela “Colheita de Flores” , de 1972

“A ideia inicial foi do funcionário Reginaldo Tobias, do setor de Educação. A partir da proposta, foi criado o grupo que passou a pesquisar dentro da coleção do museu como o negro foi representado e em que momento adquiriu protagonismo”, explica Cláudia. As obras selecionadas estão inseridas em seus contextos temporais. “As questões do negro e do nacional estão imbricadas na construção de uma brasilidade, via Brasil Colônia-Império, Brasil Estado Novo e Brasil atual”, conta.

As primeiras obras retratam o tráfico negreiro, a fauna e a flora. “A composição inclui vegetais e animais e, na mesma proporção, os negros surgem de forma muito pequenina, em um cenário sem problematização, como parte da natureza”, diz. O núcleo também mostra gravuras de Debret, cenas do “Vendedor de flores na porta da igreja”; “Mulatas na festa de Natal” pontificam entre obras de arte dos séculos XVI ao XX. Entre as peças, há uma gravura sobre o navio negreiro, em perspectiva de Newton Cavalcanti e a escultura “O escravo”, de autoria de João Batista Ferri.

No segundo núcleo, a obra “Redenção de Cam”, de Modesto Brocos é o que orienta a narrativa. “Porque discutimos o seguinte: embora tenha acontecido a Lei Áurea em 1888, os ex-escravizados não tinham acesso a qualquer outra condição de inclusão na sociedade, ficaram abandonados, um problema para o país. Existia já um discurso sobre um país civilizado, mas porém muitos negros não estão inseridos. É quando vem a ideia da ideologia do ‘Branqueamento’”, destaca a museóloga.

“Mulatas a caminho do sítio para as festas de Natal”, de Debret

Utilizando o quadro de Brocos no Congresso Universal das Raças, o “Branqueamento” foi tema do discurso do médico João Baptista de Lacerda, em 1911. Para ilustrar sua ideia, mostra que a mestiçagem era o caminho para eliminar a cor da pele dos brasileiros. No quadro, à esquerda surge uma mulher negra com os braços para cima, ao centro do quadro já se vê uma senhora mestiça, filha desta negra, com bebê no colo e o rapaz branco sentado à direita já é filho de um pai branco, por isso, a pele é alva. “Nas projeções do médico, em 2012 o Brasil inteiro já seria civilizado e branco”, conta Cláudia.

Mas há uma virada: na década de 1930, emerge outro discurso, o da valorização do negro através do futebol. Leônidas, que ficou conhecido como Homem-Borracha ou Diamante Negro, foi um grande personagem da época. Exímio jogador, atuante nas Copas de 1934 e 1938, fez 37 gols em 37 partidas. A política do Estado Novo abre espaço então para o protagonismo. Neste segundo módulo, o futebol entra também através do quadro “Futebol Fla-Flu” (1975), de Djanira.

A valorização do negro emerge no segundo módulo da exposição, através do futebol, como na obra “Futebol Fla-Flu” (1975), de Djanira

Registre-se: entre as peças que há 50 anos não são expostas há um conjunto de 20 esculturas em argila de Manoel Eudócio é de Caruaru, discípulo do Mestre Vitalino, a tela “Futebol”, de José Borges da Costa e a “Cabeça de Leônidas”.

No terceiro núcleo, a questão do protagonismo do negro surge efetivamente. “O percurso começa desde a Academia Imperial de Belas Artes, no século XIX, com Estevão Silva, que foi o primeiro artista negro a se formar na instituição. Tínhamos o contexto do século XVIII, que era do artesão e do aprendiz, vários artistas aprendiam com estampas e gravuras trazidas pelos portugueses. Com a vinda da Missão Artística, há a institucionalização do ensino das artes no Brasil, aí os artistas passam a ter essa formação. Ele se tornou um exímio pintor de naturezas-mortas”, explica.

Nesse núcleo também estão obras de pintores de formação autodidata, de origem popular, caso da pintora mineira Maria Auxiliadora, cuja obra está sendo exposta no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Dela, está sendo exibida a tela “Colheita de Flores” (1972). A artista, que morreu jovem, tem o ápice da sua produção entre 1960 e 1970 – faleceu em 1974. “Como outros artistas negros, todos com talento, mas muito pobres, desde pequena ela aprendeu a bordar e costurar com a mãe, assim foi desenvolvendo linguagem própria.

Maria começou a fazer pintura em relevo com o uso do próprio cabelo, foi descoberta pelo físico e crítico de arte Mário Schenberg, que divulga seu trabalho ao Brasil e ao mundo. Porém, quando ela se tornava conhecida, veio a falecer. Hoje, o trabalho dela está sendo redescoberto”, diz Cláudia. Na reta final da exposição, há também a Arte Africana como ponte para diálogo com o protagonismo do artista negro. Destacam-se trabalhos de Rubem Valentim e Emanoel Araújo.

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SERVIÇO

Das galés às galerias: representações e protagonismos do negro no acervo do MNBA

Museu Nacional de Belas Artes (Av. Rio Branco, 199 – Cinelândia; Tel.: 3299-0600)

Terça a sexta, 10h às 18h • Sábado, domingo e feriados 13h às 18h • R$ 8 e R$ 4 • Grátis aos domingos • Até 30/9

monica.riani@jb.com.br