Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis (Parte VIII)

 

INTERVENTORIA DE JURACY MAGALHÃES

A morte do tenente Pompa fechou o ciclo de interventores federais civis na Bahia. Deposto Artur Neiva no mesmo dia do enterro do tenente Pompa, o general Raimundo Barbosa ocupou o governo. Nos fins de agosto, o presidente Getúlio Vargas nomeou interventor federal na Bahia o jovem tenente Juracy Montenegro Magalhães, na ocasião o segundo militar revolucionário de maior destaque do Ceará até a Bahia. O capitão Juarez Fernandes Távora, na época chamado “vice-rei do norte”, continuava o primeiro.

Nascido em Fortaleza, Ceará, a 04 de agosto de 1905, Juracy Montenegro de Magalhães era filho do guarda-livros Joaquim Magalhães – ascendeu na profissão e chegou a criar uma organização associativa dos comerciários cearenses e a ser venerável da maçonaria e provedor da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza – e Júlia Montenegro Magalhães, com antepassados nas revoluções de 1817 e 1824 em Pernambuco, Paraíba e Ceará. Tiveram doze filhos, dos quais oito chegaram a vida adulta: quatro homens e quatro mulheres. Nascido em família classe média-média, de poucos recursos, mas orgulhosa de suas origens e posições conquistadas com sacrifícios e trabalho, o menino Juracy cresceu sabendo que precisava “vencer na vida” por esforço próprio. Com dois irmãos estudando para serem médicos, optou pela carreira militar, igual a outros milhares de jovens brasileiros oriundo da classe média. Em 1922, com 17 anos de idade, ingressou no Exército e foi cursar a Escola Militar em Realengo, no Rio de Janeiro. Aluno dedicado, saiu aspirante em 1926. No final de 1927, servindo na Vila Militar, começou as atividades conspirativas que o levaram ao levante do 22º BC na Paraíba e à revolução de 1930.

Nomeado interventor federal na Bahia nos últimos dias de agosto de 1931, a 1º de setembro Juracy conversou com políticos baianos residentes no Rio de Janeiro: J.J. Seabra, Pedro Lago e João Mangabeira. Encontrou distância temperada com educação. Em telegrama do Rio de Janeiro para o jornal A Tarde, Seabra divulgou que se opunha à sua nomeação. Fortalecido, no entanto, por novos compromissos de apoio de Juarez Távora, do interventor de São Paulo, João Alberto Lins de Barros, do ministro José Américo de Almeida e do próprio presidente Getúlio Vargas, o tenente Juracy Magalhães partiu para a Bahia decidido a provar as suas qualidades de político da revolução de 1930.

Tomou posse da interventoria no dia 19 de setembro de 1931. Tinha um programa imediato: combater o banditismo no largo sertão da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco, exercido por Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. E outro mais extenso: equilíbrio das finanças, atenção e apoio à agropecuária, com destaque para a lavoura e o comércio do cacau. Também mostrou sinais favoráveis a negociações com os calmonistas e mangabeiristas ao suspender os processos abertos pela revolução contra o ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon e o ex-secretário da Fazenda do ex-governador Vital Soares, Eduardo Rios.

No seu discurso de posse, o novo interventor declarou: “Agirei com energia e serenidade, cumprindo os ideais revolucionários.”

Convencido de que a revolução se institucionalizaria em futuro próximo, o novo interventor iniciou o seu projeto político na Bahia aproximando-se dos baianos que tinham restrições e conflitos com os chefes oligárquicos recém-derrubados. Nesses inícios de sua construção como líder político, contou com o apoio do arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, Dom augusto Álvaro da Silva, pernambucano já experimentado na forma educada de distanciamento baiano. Outro apoio importante foi o do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Pedro Ribeiro de Araújo Bitencourt, que o conduziu ao seu filho, Clemente Mariani, jovem advogado da poderosa casa Magalhães. Por extensão, também aproximou do interventor o companheiro de escritório de advocacia de Clemente Mariani, João Marques dos Reis.

Em alguns meses, o jovem interventor chegou a diversos outros baianos que viriam a se afirmar nos anos de 1930 como personalidades destacadas da política baiana.

Procedendo com a mesma tática no interior da Bahia, para onde passou a viajar todo fim de semana, identificou e nomeou prefeitos pessoas reconhecidamente hostis à situação deposta. O primeiro nomeado foi o comerciante Mário Cravo, para prefeito da importante cidade de Alagoinhas. Seguiram-se: Eduardo Bizarria Mamede, para Santo Amaro, Valter Lopes Bitencourt, para Nazaré das Farinhas; Eusínio Lavine, para Ilhéus; Gileno Amado, para Itabuna; e outros. Por intermédio de João da Costa Pinto Dantas, político na região do rio Itapicuru e descendente direto do Barão de Jeremoabo, conheceu os coronéis do São Francisco, Franklin Lins Albuquerque, de Pilão Arcado, e João Duque, de Cariranha. Com estes e muitos outros das diversas áreas do vasto território da Bahia, Juracy Magalhães teceu a extensa malha política que lhe permitiu formar bancadas majoritárias na Assembleia Nacional Constituinte de 1934 e na baiana de 1935. Antes de ser reconhecido nacionalmente como o único militar da revolução de 1930 vitorioso na política, Juracy Magalhães experimentou a polarização de força estabelecida pelo movimento militar paulista de 1932.

Veja a seguir campanha contra Lampião

 

foto google

 

 

 

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora UNESP, 2006.

Não deixe de ler a Parte VIII, continuação ( publicação no sábado (09/06/2018). Aqui no Blog do Prof. Desiderio

 

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