Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis (Parte XIV)

Governo Mangabeira

      A 10 de abril de 1947 o governador Otávio Mangabeira tomou posse do governo de um estado da Bahia pobre, atrasado e ferido por sucessivas interventorias do Estado Novo, das quais a única que experimentou tímido programa nas áreas de educação e agronomia foi a de Landulfo Alves de Almeida. Faltava carne na cidade do Salvador. A carestia de vida era enorme. A economia baiana mais atuante era a do cacau. Ela fornecia porém “mais divisas ao país” do que a Bahia, dependendo do mercado externo e sofria com a legislação tributária federal. Faltavam escolas, hospitais, estradas de rodagem, portos marítimos e fluviais, navios e estradas de ferro.

Surpreso com o que encontrava, o governador Otávio Mangabeira suspeitou da existência de um “enigma baiano”. Indicou o economista Inácio Tosta Filho para estudar esse “enigma” e propor um plano de desenvolvimento para o estado. Abriu inquérito para identificar a situação da energia elétrica, há anos sob exploração de uma empresa privada estrangeira que nada acrescentara a um sistema antigo e sucateado. Criou uma Comissão Estadual de Preços, ligada à Secretaria de Agricultura. Recuperou o velho matadouro do Retiro e colocou em ação o matadouro do porto de São Roque.

Uma das situações mais traumáticas que o governo Mangabeira encontrou foi a crise urbana na cidade do Salvador, provocada pela migração de milhares de famílias do interior do estado para a capital, fenômeno causado pela concentração da propriedade da terra e a falta de presente e futuro para os que trabalhavam. As invasões em áreas desocupadas resultaram no movimento migratório. A primeira foi o Corta Braço, no bairro da Liberdade. Seguiu-se a área alagada da Massaranduba, a margem do Caminho de Areia, hoje Avenida Tiradentes. Aí se formou a Vila Rui Barbosa. Depois de um período de conflitos entre invasores e polícia, o governo Mangabeira concordou em desapropriar, “por motivo social”, as terras invadidas.

Anísio Teixeira na Educação da Bahia

Declaradas acima dos interesses políticos, ausente portanto dos compromissos eleitorais com os partidos que apoiavam o governo, a Secretaria de Educação e Saúde foi entregue ao educador Anísio Teixeira. O governador Mangabeira o convocou para exercê-la quando ele se encontrava em missão internacional na UNESCO, planejando com outros técnicos a melhor educação para o mundo pós-guerra. Auxiliado na parte de saúde pelo médico José Silveira, Anísio Teixeira inaugurou na Secretaria de Educação um período de inovações e realizações que mudaram substancialmente o quadro educacional da Bahia. Em um ano de governo estavam em construção 258 novos prédios escolares. Símbolo do ensino secundário em todo o estado, o centenário Ginásio da Bahia, sucessor do Liceu Provincial, cresceu para cinco novos centros: Central, Liberdade, Itapagipe, Nazaré e Brotas.

Anísio Teixeira partiu dos primeiros resultados positivos de sua administração para a inovação criadora dos Centros Educacionais Integrados em Escolas Classes e Escolas Parques. Em quatro anos de Trabalho, passaram a existir na Bahia escolas de nível elementar, ginásios e colégios de nível secundário que se distanciavam dos anteriores não só em instalações, prédios e salas de aulas, mas sobre tudo no professorado concursado em títulos e provas orais e escritas, em boa parte diplomados pela faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Jovem Universidade Federal da Bahia. Quase no fim do governo Mangabeira já existia o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, com duas Classes, estando a primeira Escola Parque do Brasil em construção no Bairro do Pau miúdo.

Cultura

É de todo necessário destacar que o governo Mangabeira foi o primeiro a realizar uma política de apoio e incentivo à Cultura na Bahia. Foi para realiza-la que Anísio Teixeira criou um Departamento na Secretaria de Educação. Em pouco tempo, ele se tornou o grande centro de apoio e inovação para às artes plásticas, música, o teatro, o cinema e a literatura baiana. Ajudou o curso de formação de bibliotecárias que deu origem à faculdade de Biblioteconomia da Universidade da Bahia. Patrocinou o I Salão Baiano de Belas- Artes e dessa forma inaugurou nacionalmente os artistas plásticos Genáro de Carvalho, Jenner Augusto, Mario Cravo e o Pintor argentino Carybé. Músicos de fama internacional estiveram na Bahia contratados pela Sociedade de Cultura Artística do Brasil (SCAB), dirigida pela artista Alexandria Ramalho. Inspirada em famoso livro do escritor Monteiro Lobato, a peça musical do teatrólogo Adroaldo Ribeiro Costa, Narizinho, foi encenada com enorme sucesso e presença do criador da literatura infanto-juvenil brasileira. O Clube de Cinema iniciou suas atividades sob a orientação do crítico de cinema e escritor Walter da Silveira. Por iniciativa do poeta Cláudio Tuiuti Tavares, do escritor Carlos Vasconcelos Maia  e do jornalista Alfredo Darwin Brandão, surgiu a revista Caderno da Bahia. Em abril de 1950, o governo patrocinou o III Congresso Brasileiro de Escritores, que reuniu na Cidade do Salvador grandes nomes da literatura brasileira.

Contradições

Apesar desses aspectos positivos, o governo Mangabeira conheceu graves episódios políticos, dentre os quais se destacam o empastelamento do jornal diário O Momento e a repressão policial ao comício de 28 de fevereiro de 1948 na Praça da Sé em protesto pela cassação dos parlamentares comunistas na Câmara e no Senado, Assembleias Legislativas e Câmaras municipais. Elas ocorreram na sequência de atos arbitrários e antidemocráticos que se desdobraram no governo do presidente general Eurico Gaspar Dutra. O comício foi convocado por sindicatos e organizações populares dias após as cassação do mandato dos deputados Jaime Maciel e Giocondo Dias. Avisada pelos convites distribuídos nas ruas e portas das fabricas, a polícia ocupou o centro da cidade do Salvador a partir das primeiras horas da tarde. Não permitia o menor agrupamento de pessoas da praça Castro Alves até a Praça da Sé. Às 17 horas do Sindicato dos Bancários, da Associação Feminina, da Associação dos Moradores do Corta Braço e outras, tentaram romper o bloqueio policial nas ruas Chile, Ajuda, dos Capitães, Ladeira da Praça, Cruzeiro do São Francisco e Terreiro de Jesus. Cerca das 18 horas, um carro entrou na Praça da Sé conduzindo o deputado Giocondo Dias, principal orador do comício. Logo em seguida, o delegado auxiliar o procurou para comunicar que a proibição partira diretamente da Presidência da República. As policias civil e militar estavam ali para cumprir essa ordem antes que sucedesse algo pior. Nesse instante apagaram-se todas as luzes da praça e das ruas adjacentes e começou cerrado tiroteio, do qual saiu ferido o deputado Giocondo Dias e morto um jovem bancário.

Ao voltarem as luzes, o carro tinha desaparecido com o deputado e a polícia realizava prisões indiscriminadas de estudantes que saiam da Biblioteca Pública, jornalistas que atendiam tarefas dos deus jornais, bancários, funcionários públicos e comerciários que voltavam para casa e simples pedestres, conduzindo-os presos e sob espancamento para o prédio da Secretaria da Segurança Pública, na Praça da Piedade. Foram libertados na manhã do dia seguinte por ordem do governador Otávio Mangabeira.

Foto: Prof. Desiderio de Melo diretor geral do IAT entre 2017 e 2018

 

Foto google: Instito Anísi Teixeira, IAT, Salvador, patrimônio dos educadores da Bahia e dos baianos, está fazendo 35 anos a serviço da Educação

 

 

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora UNESP, 2006.

Não deixe de ler a Parte XIV, continuação ( publicação na quarta-feira 11/07/2018). Aqui no Blog do Prof. Desiderio

 

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