Bahia: das mudanças lentas as transformações possíveis (Parte XV)

 

CAMPNHAS PATRIÓTICAS

Eleitos em outubro de 1950, Getúlio Vargas, presidente da República, e Luís Regis Pacheco Pereira, governador da Bahia, tomaram Posse em janeiro de 1951 sob expectativas cautelosas e oposições declaradas.

O candidato Getúlio Vargas fizera campanha eleitoral declarando que “o povo brasileiro” ia subir as escadarias do Catete com ele. Na mesma vertente populista prometeu retomar a concessão de direitos para os trabalhadores, ampliar os benefícios dos Institutos de Assistência e Pensões (IAPs), aumentar o valor do salário mínimo, combater a carestia de vida e patrocinar o desenvolvimento econômico do país. A UDN impugnou a sua eleição e pediu ao Tribunal Superior Eleitoral que a  anulasse alegando que o número de votos dados a Getúlio Vargas não atendia à exigência constitucional de maioria absoluta. Eleito com 48% do total dos votos, O Tribunal Superior Eleitoral julgou que a Constituição fora atendida e recusou a petição. Político filiado a UDN, o jornalista Carlos Lacerda escreveu no seu jornal, Tribuna da Imprensa: “ O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato não deve ser eleito. Eleito, eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer a revolução para impedi-lo de governar”. Nesse mesmo diapasão ocorreram repetidos boatos de golpes contra a posse de Getúlio Vargas na Presidência da República. Cresceram e desapareceram com as declarações legalistas das autoridades do Exército, Marinha e Aeronáutica. Registre-se que elas correspondiam a uma correlação de forças expressa no sucesso da campanha O petróleo é Nosso, em todos os estados do país desde 1948.

O Petróleo é Nosso

O Petróleo é Nosso ganhou as ruas, praças, salões de conferências e plenários da Câmara Federal e Assembleias Legislativas, com a participação de personalidades da política e da cultura e oficiais militares de alta patente. Tinha-se a expectativa de que a exploração industrial do petróleo brasileiro seria o grande incentivo para o desenvolvimento econômico do país. As possibilidades de produção dos poços já abertos na Bahia se afirmavam com o trabalho do Conselho Nacional do Petróleo. A descoberta do poço de água grande, no município de Catu, revelou uma produção de setecentos barris por dia, dado promissor de novas descobertas de poços ainda mais produtivas.

Em dezembro de 1951, o governo Vargas enviou a Câmara Federal um projeto de lei criando uma empresa petrolífera de capital misto. Chamar-se ia Petrobras. Essa proposta dividiu o país em duas posições. Uma defendia a empresa mista prevista no projeto, mas sob o monopólio do Estado na descoberta e perfurações dos poços. As refinarias e a comercialização dos produtos do ouro negro continuariam com as empresas privadas. A outra posição desejava o monopólio estatal em todas as etapas da produção. Foi esta a que se estabilizou no projeto que criou a Petrobras, aprovado em outubro de 1953.

Coréia

A outra campanha foi contra o envio de soldados brasileiros para a guerra na Coréia, episódio quente na Guerra fria entre os países capitalista e a União Soviética. Com o Slogam “Os soldados, nossos filhos, não irão para a Coréia”, essa campanha ganhou praças e ruas dos maiores centros urbanos do pais e deteve negociações dos Estados Unidos com o governo Vargas para participação do Brasil na guerra da Coréia. Esse bom resultado produziu equívocos e leitura ideológicas conflituosas nas camadas sociais mais fechadas do pais. Políticos, comerciantes, industriais, banqueiros, e militares enxergavam “comunismo” em qualquer ato público de protesto ou tentativa de mudança que partisse de algum setor do governo Vargas. Estavam particularmente contra a atuação do político do PTB gaúcho João Belchior Marques de Goulart no Ministério do Trabalho, que consideravam “perturbadora da paz social” por causa da cobrança que fazia de novos direitos para os trabalhadores e de reajuste do salário mínimo. Um veto de coronéis do Exército o retirou do cargo. Procurando se compor com os militares, o presidente Vargas consentiu que realizassem inquéritos policiais (IPMs) destinados a identificar “infiltração comunistas nas forças armadas”.

Esses inquéritos se inauguraram na Bahia em junho de 1952 com o sequestro do escritor, comerciante e ex-marinheiro João Palma Neto, em sua empresa comercial. Foi levado para o forte do Barbalho, onde permaneceu duas semanas nu e sob constrangimento físico. Foi solto por ordem direta do comandante da 7ª RM, general Hasketh Hall, que se convenceu do absurdo da prisão. Ao ser libertado, Palma Neto tinha perdido 17 quilos. Alguns dias depois de ele sair d prisão ocorreu o sequestro de um jovem de 19 anos de idade, estudante de engenharia civil, dentro de um ônibus, por cinco desconhecidos. Preso no forte do Barbalho, colocaram-no despido num círculo de soldados que o imobilizaram com a ponta das baionetas. Permaneceu assim durante 24 horas de interrogatórios que procuravam obriga-lo a confessar a existência e localização de células do partido comunista nos quartéis. Também foi ameaçado de ser jogado no mar no decurso de um voo entre Salva dor e Aracaju. Episódios como esses se repetiram no país e conduziram o governo à decisão de acabar com os IPMs que tantas vítimas fizeram.

 

 

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foto google: Campanha o Petróleo é Nosso: Vargas com a mão pintada de petróleo

Fonte bibliográfica

Luís Henrique Dias Tavares, em Histórias da Bahia, salvador: editora UNESP, 2006.

Não deixe de ler a Parte XVI, continuação ( publicação no sábado 14/07/2018). Aqui no Blog do Prof. Desiderio

 

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