Alucinações Musicais(Parte II)

CONVULSÕES MUSICAIS

O raio que atingiu o Dr. Cicoria  poderia ter desencadeado tendências epiléticas em seus lobos temporais? Há muitos relatos sobre o início de inclinações musicais ou artísticas em convulsões do lobo temporal, e os que sofrem esses ataques também podem adquirir intensos sentimentos místicos ou religiosos, como ocorreu com Cicoria. No entanto, ele não descrevera nada parecido com convulsões epiléticas, e aparentemente o eletroencefalograma feito logo após o acontecimento resultara normal.

      Porque então a musicofilia demorou tanto a se manifestar no caso de Cicoria? O que estava acontecendo nas seis setes semanas que se passaram entre sua parada cardíaca e a erupção muito repentina da musicalidade? Sabemos que houve efeitos imediatos da queda do raio: experiência extracorpórea, a experiência de quase-morte, o estado de convulsão que durou algumas horas e o distúrbio de memória que permaneceu por duas semanas. Esses efeitos podem ter decorridos da anoxia cerebral, pois seu cérebro sem dúvida ficou sem oxigênio por um minuto ou mais – Avalia Dr. Sacks – Mas também é possível que o próprio raio tenha afetado diretamente o cérebro. Entretanto, é impossível não suspeitar que a aparente recuperação do Dr. Cicoria duas semanas depois do evento não tenha sido completa como se pensou. Talvez tenham ocorrido outras formas de dano cerebral que passaram despercebidas, e seu cérebro ainda estivesse reagindo ao trauma original e se reorganizando durante esse período, conclui.

Opinião do Dr. Cicoria

O Dr. Cicoria julga-se “uma pessoa diferente” agora – em sua vida musical, emocional, psicológica e espiritual. Essa foi também a impressão de Sacks ao ouvir sua história e ver algumas das novas paixões que o transformaram. “ Analisando-o de uma perspectiva neurológica, acho que seu cérebro agora deve ser muito diferente do que era antes de o raio atingi-lo ou em comparação com o que foi nos dias imediatamente seguintes ao acidente, quando os exames neurológicos não detectaram nenhum grande problema”. Presumivelmente estavam ocorrendo mudanças nas semanas subsequentes, quando seu cérebro estava se organizando – preparando – se, digamos, para a musicofilia. Poderíamos hoje, doze anos depois, definir a base neurológica de sua musicofilia? – Pergunta Sacks – Vários exames novos e muito mais refinados da função cerebral foram desenvolvidos desde que Cicoria sofreu o trauma(1994), e ele concordou que seria interessante investigar mais a fundo a questão. Mas depois reconsiderou e disse que talvez fosse melhor deixar como estava. Ele tivera sorte, e a música, não importava como lhe houvesse chegado, era uma benção, uma graça – que não deveríamos questionar.

UMA SENSAÇÃO ESTRANHAMENTE FAMILIAR: CONVULSÕES MUSICAIS

      Jon S., um homem robusto de 45 anos, gozou de perfeita saúde até janeiro de 2006. Numa manhã de segunda-feira, no escritório, quando sua semana de trabalho apenas começava, ele foi ao closet pegar alguma coisa. Assim que entrou ali, subitamente começou a ouvir música – “clássica, melódica, muito agradável tranquilizadora… vagamente familiar… era um instrumento de corda, um solo de violino”.

    Imediatamente pensou: “Mas de onde será que está saindo essa música?”. Havia no closet um velho aparelho eletrônico descartado, que tinha botões, mas não altos falantes. Confuso, em um estado que mais tarde chamou de “animação suspensa”, ele remexeu nos controles para desligar a música. “E, então, apaguei”, ele contou. Um colega do escritório que presenciou a cena descreveu o senhor S. no closet como “derreado, insensível”, mas não em convulsão.

     A recordação seguinte do Sr. S. era a de um especialista em emergências médicas debruçado sobre ele, fazendo perguntas. Não conseguia lembrar-se de data, mas lembrava-se do seu nome. Ele foi levado ao pronto-socorro de um hospital da região, onde sofreu outro episódio. “Eu estava deitado, o médico me examinava, minha mulher estava lá…eu recomecei a ouvir a música e falei: ‘está acontecendo de novo’, e então, muito rapidamente, desliguei”.

     Acordou em outro quarto, percebeu que mordera a língua e as bochechas, e sentia fortes dores nas pernas. “Disseram-me que eu sofrera um ataque epilético, com convulsões e tudo…aconteceu muito mais rapidamente do que da primeira vez”.

     Fizeram-lhe alguns exames e administraram-lhe uma droga antiepilética, para protege-lo de novos ataques. Desde então, ele fez mais exames ( nenhum dos quais revelou anormalidades) – Uma situação nada incomum nas epilepsias do lobo temporal). Embora nenhuma lesão fosse visível nos exames de neuroimagem do cérebro, o Sr. S. mencionou que sofrera um traumatismo razoavelmente grave quando tinha quinze anos, uma concussão, no mínimo, e isso pode ter produzido ligeiras cicatrizes nos lobos temporais.

 O Sr. S. conversa no consultório com o Dr. Sacs – “Quando lhe pedi para descrever a música que ouvira imediatamente antes dos ataques, ele tentou cantá-las, mas não conseguiu. Disse que não era capaz de cantar música nenhuma, mesmo as bem conhecidas. E acrescentou que não era realmente uma pessoa muito musical, e que o tipo de música clássica de violino que “ouvira” antes do ataque não era do seu gosto; parecia: ”lamentosa, como miado de gato”. Ele costumava ouvir música pop. Ainda assim, não sabia porquê, aquela lhe parecia familiar. Sera que ele a ouvira a muito tempo atrás, na infância”?

     Recomendou que, se ele alguma vez ouvisse  aquela música, no radio, por exemplo, anotasse e lhe informasse. O Sr. S. prometeu ficar de ouvidos atentos, mas comentou que, enquanto estavam ali conversando, não podia evitar a ideia de que talvez se tratasse apenas de sensação, uma ilusão de familiaridade ligada à musica, em vez de uma recordação real de alguma coisa que já ouvira. Havia algo de evocativo, mas difícil de definir, como na música ouvida em sonhos.

     E assim ficaram – “ Eu me pergunto se algum dia receberei um telefonema do Sr. S. dizendo: ‘Acabei de ouvir a música no rádio! Era uma suíte de Bach para solo de violino’. Ou se o que ele ouviu foi uma construção ou alguma combinação com características de sonho que, apesar de toda a ‘sensação de familiaridade’, ele nunca identificará”. Vaticinou Sacks.

 

Continua na Parte III (sábado, 28/07/18).

foto Gogle: Centro Suzuki Indaiatuba

Fonte bibliográfica e textos:
Sacks, OLIVER,  Alucinações Músicais, Relatos sobre a música e o cérebro, Tradução: Laura Teixeira Motta, 2ª reimpressão; Companhia das Letras, São Paulo – 2007
Comentários: Desiderio Bispo de Melo, graduado e m história e direito, pós graduado em musicoterapia pelo CEPOM – Olga Mettig

 

 

 

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