Alucinações Musicais (Parte III)

 

MÚSICA NO CÉREBRO: IMAGENS MENTAIS E IMAGINAÇÃO

Nesta parte, Dr. Oliver Sacks a presença da musica no cérebro humano, assim como as diferentes formas de percepção e limitação e as habilidades de músicos que são capazes de ‘ouvir’ seu instrumento durante a prática mental.

A música, para a maioria de nós é uma parte significativa e em geral agradável da vida. Não falo só da música externa, a que ouvimos com nossos ouvidos, mas também da musica interna, a que toca na nossa cabeça. Quando Galton escreveu sobre “imagens mentais” na década de 1880, referiu-se apenas a imagens visuais, e de modo nenhum a imagens musicais. Mas se fizermos um levantamento entre nossos amigos poderemos perceber que as imagens mentais musicais apresentam-se em uma gama tão variada quanto as visuais. Há pessoas que mal conseguem manter uma melodia na cabeça, enquanto outras podem ouvir sinfonias inteiras na mente, quase tão detalhadas e vividas quanto as vividas quanto as ouvidas por meio da percepção real.

“Eu me dei conta dessa imensa variação ainda criança, pois meus pais situavam-se nos extremos opostos do espectro. Minha mãe tinha dificuldade para imaginar voluntariamente qualquer melodia, enquanto meu pai parecia possuir uma orquestra inteira dentro da cabeça, pronta para tocar o que ele mandasse. Ele sempre trazia no bolso duas ou três minipartituras orquestrais, e entre um e outro paciente às vezes pegava uma das partituras e executava um concerto interno. Não precisava por um disco no gramao-fone, pois era capaz de tocar mentalmente uma partitura quase com a mesma vividez, talvez em diferentes modos ou interpretações, e ocasionalmente com uma improvisação de sua autoria. Sua leitura de cabeceira favorita era um dicionário de temas musicais. Ele folheava algumas paginas, quase ao acaso, saboreando isto ou aquilo, e então, estimulado pela abertura de alguma composição, decidia-se por uma sinfonia ou concerto favorito, a sua própria Kleine Nachtmusic (Pequena serenata), como ele dizia.”

    Continuando, Sacks acrescenta: “Minhas habilidades de imaginar e perceber música são muito mais limitadas. Não sou capaz de ouvir toda uma orquestra na cabeça, pelo menos em circunstância normais. O que possuo, em certo grau, são imagens mentais de pianista. Com músicas que conheço bem, como mazurcas de Chopin, que aprendi a tocar de cor há sessenta anos e continuo a apreciar imensamente até hoje, só preciso relancear os olhos por uma partitura ou pensar em determinada mazurca (um “opus nº” já me basta) e a mazurca começa a tocar na minha cabeça. Eu não só “ouço” a música, mas ‘vejo’ minhas mãos no teclado à minha mãos no teclado a minha frente e as ‘sinto’ tocar a composição – uma execução virtual que, uma vez começada, parece se desenvolver ou prosseguir por conta própria. Quando eu estava aprendendo as mazurcas, descobri que até podia praticá-las na mente, e muitas vezes ‘ouvia’ frases ou temas específicos das mazurcas tocando por si mesmos. Ainda descobri que seja de um modo involuntário e inconsciente, executar passagens mentalmente dessa maneira é uma ferramenta crucial para toda pessoa que toca um instrumento, e a imaginação de estar tocando pode ser quase tão eficaz quanto a realidade física.

foto: Google

Pesquisas ( Zatorre)

Desde de meados de 1990, estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade de ativação causada por ouvir música. Imaginar música também estimula o córtex motor, e, inversamente, imaginar a ação de tocar música estimula o córtex auditivo. Isso observaram Zatorre e Halpern em um ensaio de 2005, “corresponde às afirmação de músicos de que são capazes de ‘ouvir’ seu instrumento durante prática mental”.

Como Alvaro Pascual-Leone observou, estudos sobre o fluxo regional de sangue no cérebro.

[indicam que] a simulação mental de movimentos ativa algumas das estruturas neurais centrais requeridas             para execução dos movimentos reais. Ao fazê-lo, a prática mental por si só parece ser suficiente para promover a modulação de circuitos neurais envolvidos nas primeiras etapas do aprendizado de habilidades motoras. Essa modulação não só resulta em acentuada melhora na execução, mas também parece deixar individuo em vantagem para aprender a habilidade menos prática física. A combinação da prática física e mental [ele acrescenta] leva a um aperfeiçoamento da execução mais acentuado do que prática sozinha, fenômeno esse para o qual nossas descobertas fornecem uma explicação fisiológica.

 

A expectativa e a sugestão podem intensificar notavelmente a imaginação musical e até produzir uma experiência quase perceptual. Sacks conta que Jerome Brunner, seu amigo, pessoa extremante musical, contou-lhe que certa vez pôs um de seus discos favoritos de Mozart  para tocar, ouviu com grande prazer e então foi virar o disco para ouvir o outro lado. Descobriu, naquele momento, que não tinha posto o disco para tocar da primeira vez. Talvez esse seja um exemplo extremo de algo que acontece às vezes com todos nós com músicas bem conhecidas: “pensamos estar ouvindo a música baixinho no rádio, mas ele foi desligado ou a música já acabou, e ficamos em dúvida se ela ainda continua a tocar ou se estamos simplesmente a imaginá-la”.

Na década de 1960 foram feitos alguns experimentos inconclusivos sobre o que os pesquisadores denominaram de “efeito White Christmas” ( referência ao filme Véspera de Natal). Na época, a versão de Bing Crosby para essa musica era conhecida por praticamente todo mundo. Alguns indivíduos “ouviam” essa música quando volume era diminuído até quase zero, ou mesmo quando os experimentadores anunciavam que iriam tocar a canção mas não o faziam. Recentemente, William Kelley e seus colegas Dartmouth obtiveram confirmação fisiológica desse “preenchimento” por imagens mentais musicais involuntária. Eles usaram imagens ressonância magnética para visualizar o córtex auditivo enquanto os indivíduos do estudo ouviam músicas conhecidas e desconhecidas nas quais breves segmentos haviam sido substituídos por lacunas de silêncio. As lacunas silenciosas embutidas nas músicas conhecidas não eram notadas conscientemente pelas pessoas, mas os pesquisadores observaram que tais hiatos “induziram maior ativação das áreas de associação auditiva do que as lacunas silenciosas embutidas; isso ocorreu tanto em músicas com letra como sem letra”

Foto google

As fitas motoras ( de Llnás)

E de súbito, Linás conclui, ‘ouvimos uma música na cabeça ou, aparentemente vindo do nada, surge-nos uma forte vontade de jogar tênis. Isso as vezes simplesmente nos acontece.” (Linás)

 

Linás, neurocientista da Universidade de Nova York, tem interesse especial pelas interações do córtex com o tálamo, que a seu ver fundamentam a consciência “Self”, e pelas interações dessas áreas com os núcleos motores sob o córtex, especialmente os gânglios basais, que Linás considera cruciais para a produção de “padrões de ação” (para andar, , fazer a barba, tocar violino etc.). Às incorporações neurais desses padrões de ação ele dá o nome fitas motoras. Linás concebe todas as atividades mentais – perceber e imaginar tanto quanto fazer – como motoras. Em seu livro, The I of the votex {O eu do vótice}, ele escreve repetidamente sobre música, tratando, sobretudo, da execução musical, mas às vezes também daquela singular forma de imaginação musical que ocorre quando uma canção ou melodia brota de súbito na mente:

Os processos neurais que fundamentam o que  chamamos de criatividade não tem relação com a racionalidade. Ou seja, se examinarmos como o cérebro gera criatividade, veremos que não se trata absolutamente de um processo racional; a criatividade não nasce do raciocínio.

 

Na verdade, nossa suscetibilidade às imagens mentais musicais requer sistemas extremamente sensíveis refinados para perceber e lembrar música, muito além do que qualquer coisa existente nos primatas não humanos. Esses sistemas, aparentemente são tão sensíveis à estimulação de fontes internas – memórias, emoções, associações – quanto à de música externa, afirma Dr. Sacks. Parecem possuir uma tendência, sem paralelos em outros sistemas perceptuais, à atividade espontânea e à repetição. Vejo meu quarto e minha mobília todos os dias, mas eles não me reaparecem como “imagem na mente”. Tampouco ouço cães imaginários latindo nem o barulho do trânsito em segundo plano na minha mente, não sinto aromas de comidas imaginárias sendo preparadas, apesar de ficar exposto todos os dias.  Tenho fragmentos de poemas e frases que me brotam de súbito na mente, porém nada parecido com a riqueza e a variação das minhas imagens mentais espontânea. Talvez não seja só o sistema nervoso, mas a própria música que contém algo muito singular – seu ritmo, seus contornos melódicos, tão diferentes da fala – e  sua ligação singular direta com as emoções. Afirma Sacks e conclui:

É realmente muito curioso que todos nós , em vários graus, tenhamos música na cabeça. Se os senhores Supremos de Artur C. Crarke ficaram intrigados quando aterrizaram no nosso planeta e observaram quanta energia nossa espécie usa para fazer e ouvir música, imagine seu espanto se percebessem que, mesmo na ausência de fontes externas, a maioria de nós toca música na cabeça incessantemente.

 

 

 

 

Continua na Parte IV (Quarta 01/07/18).

 

foto: Google

 

Fonte bibliográfica e textos:

Sacks, OLIVER,  Alucinações Músicais, Relatos sobre a música e o cérebro, Tradução: Laura Teixeira Motta, 2ª reimpressão; Companhia das Letras, São Paulo – 2007

Comentários: Desiderio Bispo de Melo, graduado e m história e direito, pós graduado em musicoterapia pelo CEPOM – Olga Mettig

 

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