Alucinações Musicais (Parte IV)

quarta-feira, 1 agosto, 2018

Dedos Fantasmas: O caso do pianista sem braço

Texto de Oliver Sacks

 

Alguns anos atrás, Sacks recebeu uma carta de Erna Otten, uma estudante de piano que fora aluna do pianista vienense Paul Wittgenstein. Este, ela comentou.

Perdera o braço direito na primeira guerra mundial. Tive muitas oportunidades de ver quanto seu coto direito se envolvia sempre que estudávamos o dedilhado de uma nova composição. Ele me disse várias vezes que eu devia confiar em sua escolha de dedilhado porque ele sentia cada dedo da sua mão direita. Às vezes eu tinha de me sentar muito quieta enquanto ele fechava os olhos e seu coto movia-se constantemente de um jeito agitado. Isso foi muitos anos depois de ele ter perdido o braço.

 

Em um pós-escrito, ela acrescentou: “Sua escolha do dedilhado era sempre a melhor!”

     O variado fenômeno dos membros fantasmas foi pela primeira vez estudado em detalhes pelo médico Silas Weir Mitchell durante a guerra de Secessão americana(1861-1865), quando numerosos veteranos foram internados nos vários hospitais criados para tratar seus ferimentos, entre eles o que ficou conhecido hospital dos “cotos”, na Filadelfia. Weir Mitchell, que era escritor além de neurologista, fascinou-se com as descrições que ouviu desses soldados, e foi o primeiro a levar a sério o fenômeno dos membros fantasmas. (até então, haviam sido considerados “coisas da mente”, aparições conjuradas pela perda e consternação, como a aparição de filhos recém-falecidos para seus pais.) Weir Mitchell mostrou que o surgimento de um membro fantasma ocorria para todos pacientes que haviam sofrido uma amputação, e deduziu que se tratava de uma espécie de imagem ou memória do membro perdido, uma persistente representação neural do membro no cérebro. Mitchell descreveu o fenômeno pela primeira vez em 1866, no conto “The case of George Dedlow” { O caso de George Dedlow”}, publicado na Revista Atlantic Monthly. Só anos depois, em seu livro The injuries of nerves { As lesões nos nervos}, de 1872, ele falou a seus colegas médicos sobre o assunto:

        [A maioria dos amputados] é capaz de ordenar um movimento e executá-lo de um modo que eles mesmos percebem ser mais ou menos eficaz. […] A certeza com que  esses pacientes descrevem seus [movimentos fantasmas] e sua confiança quanto ao lugar assumido pelas partes movidas é de fato impressionante […] o efeito tende a exercitar contrações no coto. […] Em alguns casos, os músculos que atuam na mão estão totalmente ausentes,  e mesmo assim existe uma consciência tão clara e definida do movimento e das mudanças de posição dos dedos como nos casos [em que os músculos da mão estão parcialmente preservados].

foto: Google

Essas memórias e imagens fantasmas ocorrem, em certa medida, para quase todos os amputados, e podem durar décadas. Embora os fantasmas possam ser intrusivos e até mesmo dolorosos (em especial quando o membro estava dolorido imediatamente antes da amputação), eles podem também ser muito úteis para o amputado, permitindo-lhe aprender como mover uma prótese ou, no caso de Wittgenstein, determinar o dedilhado de uma composição para piano.

Antes do relato de Weir Mitchell, pensava-se que os membros fantasmas eram puramente alucinações psíquicas conjuradas pelas perdas, pesar ou anseio – alucinações comparáveis à aparição do ente querido que uma pessoa enlutada pode vivenciar por algumas semanas depois da perda. Weir Mitchell foi o primeiro a mostrar que os membros fantasmas eram “reais” – construtos neurológicos dependentes da integridade do cérebro, da medula espinhal e das porções proximais remanescentes dos nervos sensitivos e motores do membro – e que suas sensações e “movimentos” eram acompanhadas por excitação em todas essas áreas. (Para ele, a prova de que essa excitação ocorria durante o movimento fantasma era o fato de ela “transbordar” para movimentos do coto.) – Relata Sacks.

Nas últimas décadas ocorreram grandes avanços na neurociência e na engenharia biomecânica, avanços particularmente pertinentes ao fenômeno de Wittgenstein. E os engenheiros estão desenvolvendo membros artificiais altamente refinados, com delicados “músculos”, amplificação de impulsos nervosos, servo-mecanismos etc. que podem ser ligados com a porção ainda intacta do membro e, assim, permitir que nos movimentos reais. A presença de fortes sensações fantasmas e de movimentos ordenados é realmente essencial para o êxito desses membros biônicos.

Portanto, parece possível que, num futuro não tão distante, um membro artificial desse tipo possa ser acoplado em um pianista sem braço e permitir-lhe voltar a tocar piano. O que será que Paul Wittgenstein o seu irmão achariam de um avanço como esse? O último livro de Ludwig Wittgenstein diz que nossa primeira certeza fundamental, é: “Se você sabe, de fato, que aqui está uma mão, nós admitiremos tudo o mais”. Embora se saiba muito bem que da certeza, o livro de Wittgenstein, foi escrito em resposta às ideias do filósofo analítico G.E. Moore, não podemos deixar de nos perguntar se o estranho caso da mão de seu irmão – um fantasma, é verdade, mas real, efetivo indiscutível – não teria também feito parte para incitar o pensamento de Wittgenstein.

 

 

Último episódio  ( 04/08/18).

 

Fonte bibliográfica e textos:

Sacks, OLIVER,  Alucinações Músicais, Relatos sobre a música e o cérebro, Tradução: Laura Teixeira Motta, 2ª reimpressão; Companhia das Letras, São Paulo – 2007

Comentários: Desiderio Bispo de Melo, graduado e m história e direito, pós graduado em musicoterapia pelo CEPOM – Olga Mettig