Alucinações Musicais (Final)

sábado, 4 agosto, 2018

 

Fala E Canto: Afasia e Musicoterapia

Uma viajem musical, três meses de terinamento, musicalidade como chave para transformações e cura para afasia, fecham a nossa viajem sobre as pesquisas e as realizações de Oliver Sacks para o avanço da neurociência.

 

 

Samuel S. passou a ter uma grave afasia de expressão após sofrer um derrame quando beirava a casa dos setenta anos. Dois anos depois continuava totalmente sem fala, incapaz de recuperar palavra alguma, apesar de intensivamente submetido a fonoterapia. A reviravolta para ele veio quando Connie Tomaino, a musicoterapeuta do nosso hospital, um belo dia ouviu-o cantar do lado de fora de sua sala: ele cantava ” O’man river” [O rio do velho] muito afinado, com grande sentimento, mas dizendo apenas duas ou três palavras da letra. Embora houvessem desistido da terapia da fala de Samuel, àquela altura considerado “sem esperança”, Connie achou que talvez a musicoterapia pudesse ser útil. Começou um tratamento que consistia em três sessões semanais de meia hora nas quais cantava com ele ou o acompanhava no acordeão. O Sr. S. em pouco tempo conseguiu, cantando junto com Connie, pronunciar todas as palavras da letra de “O’man river”, e depois as de muitas baladas e canções que ele aprendera na juventude, nos anos 1940. E, à medida que isso ocorria, ele começou a apresentar os rudimentos da fala. Em dois meses, estava dando respostas breves mas apropriadas a determinadas perguntas. Por exemplo: se um de nós indagava sobre o fim de semana que ele passara em casa, ele podia responder: “foi ótimo”, ou “vi meus filhos”.

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foto: Google

Os neurologistas fazem muitas referências a uma “área da fala” na zona pré – motora do lobo frontal predominante no cérebro (geralmente o esquerdo). Uma lesão numa parte específica dessa área – que foi identificada pela primeira vez em 1862 pelo neurologista francês Paul Broca -, seja ela causada por doença degenerativa seja por derrame ou traumatismo cerebral, pode produzir afasia de expressão, a perda da linguagem falada. Em 1823 Cal Wernicke descrevera outra área da fala no lobo temporal esquerdo – uma lesão nessa área tendia acarretar dificuldade para compreender a fala, uma afasia “receptiva”. Também se reconheceu, mais ou menos nessa época, que uma lesão no cérebro poderia causar distúrbios de expressão ou apreciação musical – amusia – e que, embora alguns pacientes pudessem sofrer de afasia e amusia ao mesmo tempo, outros podiam apresentar afasia sem amusia.

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foto Google

Somos uma espécie linguística. Recorremos à linguagem para expressar o que quer que estejamos pensando, e em geral ela está à nossa disposição para ser usada instantaneamente. Mas para os portadores de afasia, a incapacidade de comunicar-se verbalmente pode ser quase insuportável por causa da frustração e do isolamento decorrentes. Para piorar, essas pessoas muitas vezes são tratadas como idiotas, quase como não pessoas, porque não conseguem falar. Boa parte disso pode pode mudar com a descoberta de que esses pacientes são capazes de cantar. – cantar não só as melodias, mas também a letra de óperas, hinos ou canções. Subitamente, sua incapacidade, seu isolamento parecem reduzir-se muito – e, embora cantar não seja uma comunicação prosital, é uma comunicação existencial muito básica. Cantar não só diz: “estou vivo, estou aqui”, mas pode expressar pensamentos e sentimentos que em dado momento não tem possibilidade de ser expressos pela fala. Ser capaz de cantar palavras pode ser muito tranquilizador para tais pacientes, pois mostrar-lhes que suas habilidades de linguagem não estão irrecuperavelmente perdidas, que as palavras ainda estão “neles”, em algum lugar, embora seja preciso música para fazê-las aflorar.

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A própria fala não é só uma sucessão de palavras na ordem apropriada. Ela tem inflexões, entonações, andamento, ritmo e “melodia”. Linguagem e música dependem de mecanismos fonadores e articulatórios que em outros primatas são rudimentares, e ambas, para serem avaliadas, dependem de mecanismos cerebrais distintamente humano dedicados à analise de séries complexas, segmentadas e em rápidas mudanças. Entretanto, existem diferenças fundamentais ( e algumas sobreposições) na representação da fala e do canto no cérebro.

Os pacientes com a chamada afasia não fluente não só apresentam uma deficiência de vocabulário e gramatica, mas também “esqueceram” ou perderam a noção dos ritmos e inflexões da fala. isso explica, isso explica quando eles ainda tem palavras disponíveis, seu estilo de falar entrecortado, não – musical, telegráfico. Via de regra, são esses pacientes que obtêm melhores resultados com a musicoterapia e que mais se animam quando conseguem cantar uma música com letra – pois, ao fazê-lo, descobrem não só que as palavras ainda estão ao seu alcance, mas que o fluxo da fala também é acessível (embora aparentemente esteja vinculado ao fluxo da canção). Isso também pode ocorrer em uma forma diferente de afasia, a chamada afasia dinâmica, na qual não é a estrutura das sentenças que é afetada, mas a iniciação da fala. Os pacientes com afasia dinâmica podem falar bem pouco, mas produzir sentenças sintaticamente corretas nas raras ocasiões que falam (…).

O que está acontecendo no cérebro quando a entoação melódica, ou qualquer tipo de musicoterapia “funciona”? Albert et Al. Originalmente supuseram que ela servia para ativar áreas do hemisfério direito homologa à área de Broca. Normam Geschwind, colega de Albert, fascinara-se com o fato de crianças poderem recuperar a fala e linguagem após a remoção de todo o hemisfério esquerdo do cérebro (isso às vezes era feito com crianças que sofriam com convulsões incontroláveis). Essa recuperação ou reaquisição da linguagem levou Geschwind a pensar que, embora a habilidade linguística e era capaz de assumir quase completamente as funções da linguagem, pelo menos em crianças. Por isso, Albert e seus colegas supuseram, sem uma comprovação clara, que isso poderia ocorrer, ao menos em certo grau, mesmo em adultos afásicos, e pensaram que a terapia da entoação melódica, como empregava as habilidades musicais do hemisfério direito,  poderia desenvolver esse potencial.

O trabalho recente de Gottfried Schlaug e seus colegas documenta minuciosamente a atividade cerebral de sete pacientes submetidos a terapia da entoação melódica ( que envolve 75 sessões de terapia intensiva). Todos esses pacientes, informaram Schlaug et Al., “apresentaram mudanças significativas nas mensurações de produção da fala em uma rede frontotemporal hemisfério direito”. Essas mudanças foram correlacionadas com aumento demonstrável do córtex nessa área. Schlaug mostrou para Sarcks alguns vídeos desses pacientes, e a mudança em sua capacidade para falar realmente era notável. De ínicio, muitos eram incapazes até de responder claramente à pergunta “qual o seu endereço?”. Depois da terapia de entonação melódica, eles responder às perguntas com muito mais facilidade e chegaram a dar mais detalhes sem ser solicitados. Claramente, haviam obtido pelo menos algum grau de fala proposicional. Essas mudanças, tanto comportamentais como anatômicas, conservam-se mesmo vários meses depois do tratamento haver terminado.

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foto: Google

Finalizando: nos termos de Schlaug, “os processos neurais que fundamentam a recuperação da linguagem após um derrame permanece, grande medida, desconhecidos, e por isso não foram especificamente abordados pela maioria das terapias para afasia”. Mas ao menos demonstrou-se que a terapia da entoação melódica é “idealmente adequada para facilitar a recuperação da linguagem em pacientes afásicos não – fluentes, em especial para os que tem grandes lesão no hemisfério esquerdo e portanto cuja única rota para a recuperação talvez seja o uso de regiões da linguagem no hemisfério direito”.

Acostumamos – nos, há cerca de vinte anos, a dramáticas revelações sobre a plasticidade cortical. Mostrou-se que o córtex auditivo pode ser realocado para o processamento visual em surdos congênitos e que o córtex visual em cegos pode ser recrutado para funções auditivas e tácteis. Mas talvez ainda mais notável seja saber que o hemisfério direito, que em circunstâncias normais só possui as rudimentares capacidades linguísticas, menos de três meses de treinamento – e que a musicalidade é a chave para essa transformações.

 

Veja a seguir: Governadores da Bahia durante o Regime militar

 

Fonte bibliográfica e textos:

Sacks, OLIVER,  Alucinações Músicais, Relatos sobre a música e o cérebro, Tradução: Laura Teixeira Motta, 2ª reimpressão; Companhia das Letras, São Paulo – 2007

Comentários: Desiderio Bispo de Melo, graduado e m história e direito, pós graduado em musicoterapia pelo CEPOM – Olga Mettig