A Formiga

 

Nossas saudações a todos. A partir deste sábado, até o último sábado de setembro, o blog do Prof. Desiderio contará a história do povoamento da cidade do Salvador, da sua gente, dos fatos históricos que marcaram a política, a economia e a sociedade dos séculos XVIII, XIX e XX. Para tanto utilizaremos como referencial teórico a obra clássica da bibliografia baiana ‘O Povoamento da cidade do Salvador’ do mestre da antropologia baiana, Thales de Azevedo.

Neste primeiro episódio o blog traz a “A formiga”, o texto narra a operação de guerra, que mobilizou, o parlamento baiano, as forças militares, os batalhões de escravos e até donas de casa para combater o terrível inimigo, que ameaçava acabar com o Brasil: O formigueiro.

Thales de Azevedo, foto Google

 

     A praga da Formiga é a mais antiga e tenaz inimiga da lavoura no Brasil. Mal chegara à Bahia, Nóbrega já mandava contar na Europa as devastações que faziam as formigas; quatro anos depois é o Pe. Luiz da Grã quem acusa esse inseto destruidor, depois Gabriel Soares e outros. Dizia Nóbrega que a parreira dava duas vezes no ano mas que não era abundante devido à formiga, que atacava também as arvores de espinho, os figos, as romãs e principalmente a mandioca.

Rei do Brasil, chamavam os portugueses a este bicho, pelo seu número e pelos estragos espantosos que fazia nas roças, nas hortas, nos jardins, nos celeiros e dispensas.

De começo os colonos parece que apenas sabiam defender-se contra as formigas que atacavam os jardins e pomares, usando vasos de barro cozido, com um sulco cheio de água, de que Gabriel Soares já nos fala e que Spix e Martins ainda encontraram em uso; o emprego desses cacos, depois fabricados em vidro, continuou até que se descobriu a transmissão da febre amarela pelas muriçocas e, em consequência, uma das medidas adotadas foi a destruição desse instrumento e das calhas de cimento, igualmente cheias de água, que se construíam em torno dos canteiros de flores.

O costume de colocar vasos com flores nas sotéias e nas janelas dos sobrados, costume tão generalizado que as leis municipais de numerosas comunas baianas, no século XIX, proibiam, tinha em vista muitas vezes proteger as plantas do ataque das formigas.

Outro recurso, utilizado nas lavouras, era armar fogueiras sobre os formigueiros, cujos ninhos ou “panelas”, se descobriam cavando o terreno. Esse era o método mais empregado contra “a malvada formiga que a todos desgosta com as suas ravagens”. Uma postura de 1785, da Câmara da cidade do Salvador, ordenava: “Todos os lavradores serão obrigados, nos três meses de abril, maio e junho, a tirarem as formigas na forma seguinte: Os vizinhos, v.g. de três e quatro roças, ou fazendas mais próximas, concorrerão com os seus escravos próprios ou alugados nos lugares em que existirem formigueiros, onde mandarão abri-los a enxada e, tirando as panelas, serão queimadas, assistindo os senhorios ou seus feitores de sorte que mutuamente se tirem em todas elas a proporção da quantidade dos formigueiros que tiverem, foliando-se primeiramente os canos para se ajuntarem, e deixarão abertos até passar o inverno para as águas penetrarem a terra mais facilmente e se introduzirem pelos canos que costumam ficar, bem entendido que cada um dos ditos lavradores serão obrigados a concorrerem com os escravos conforme o número que tiverem, e que este Senado nomeará Inspetores para irem examinar se cumprem esta postura exatamente, e achando que o transgridem  serão punidos com a pena de seis mil réis e trinta dias de cadeia”.

Por ineficaz que tivesse sido o interesse da Câmara, numa terra em que a lei foi sempre letra morta e a cooperação um dos hábitos mais repugnantes ao nosso individualismo, o certo é que os homens da governança colonial se preocuparam até com a luta contra a praga terrível que levaria Saint Hilaire a vaticinar que ou o Brasil acaba com a formiga, ou a formiga acaba com o Brasil.

 

Bibliografia

AAZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

 

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Veja o proximo episódio, sábado 1º/09/2018

 

 

 

 

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