O POVOAMENTO   DA  CIDADE  DO  SALVADOR (PARTE II)

sábado, 1 setembro, 2018

 

COMEÇA   A  MESTIÇAGEM

 

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Conhecida desde 1501, a baia de todos os Santos só muito mais tarde foi ocupada e povoada pelos portugueses. Mesmo as esquadras que demandavam a Índia e que faziam aguada em alguns pontos do litoral brasileiro, muitas vezes passavam ao largo sem entrar em majestosa enseada. Portugueses e franceses, no entanto, cedo começaram a frequentar a região para o escambo do Pau de brasil. “O contratador português a ter aqui a sua feitoria, assentada não se sabe aonde, nem por quantos anos a sustentou. Há noticias muito escassas desse primitivo estabelecimento. Sabe-se que aqui estacionou um feitor e que, de passagem para outros portos as naus do contratador aqui o tomavam para a conferência do carregamento em outro lugar”. (Casal, p.87). Esse teria sido o primeiro habitante luso dalgum ponto, provavelmente nua das ilhas do Rio Paraguaçu, do golfão em cuja entrada se edificaria a cidade do Salvador.

Noticia de Anchieta que “na era de 1504 vierão franceses à baya e pernãobuco logo os portugueses lhe derão guerra e os botarão da terra w lhe tomarão três nau na Bahya”. Os franceses – Dieppe, St Malo, e e outros portos da Normandia e Bretanha, é possível que já andassem por aqui desde a primeira metade de 1500, logo após a descoberta, sabedores do descobrimento ou por compatriotas seus, tripulantes de navios lusitanos, ou por  lusos que faziam parte da equipagem das suas naus. Esses clandestinos exploradores da madeira de tinturaria inçaram a terra de filhos de mamelucos, “louros, alvos e sardos” mas que, apesar dos seus traços europóides, nasciam, viviam e morriam com gentios tupinambás. Pero Lopes de Souza, em 1531, gabava a alvura e a beleza de índias baianas que provavelmente eram descendentes de franceses, e Gabriel Soares, cinquenta anos adiante, ainda assinalava a existência de uma segunda geração desses mamelucos, com traços que mostravam a descendência de avôs franceses, alvos e louros. Em meio desses mestiços deveriam existir também filhos de portugueses, feitores do contrato e marinheiros.

Conquanto nascidos nas imediações de Porto Seguro, é coisa de que se não pode duvidar, embora faltem referências da época, que os primeiros mamelucos baianos foram filhos dos jovens portugueses que Cabral ali deixou para aprender a língua e tomar conhecimento da maneira de vida dos aborígenes. O Episódio merece ser recordado.

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Numa terça-feira de abril de 1500, dentro da oitava da Páscoa, dia 21 no calendário então vigente, Pedro Alvares Cabral assinalava, de bordo da sua caravela, os primeiros sinais da terra que havia de ser o Brasil. Os pilotos calculavam que a frota estivesse ainda “obra de uns seiscentos e sessenta ou setenta léguas de distância. À hora de véspera da quarta-feira avistou-se um monte mui alto e redondo, a que o capitão pôs nome de Monte Pascoal, e à terra o de Vera Cruz; alcançado o litoral àquela altura, ali ficaram as naus toda a noite. Na quinta-feira, depois de aproximar até meia légua de terra, lançaram-se âncoras às dez horas, pouco mais ou menos. Reunidos todos os capitães a bordo da nau capitânia, foi Nicolau Coelho designado pelo almirante para, num batel, ir sondar o rio em cuja desembocadura para a Frota. Mas esse primeiro contato, refere Pero Vaz de Caminha, reduziu-se a um breve encontro com dezoito ou vinte indígenas, “ com quem não pode haver fala nem entendimento, que aproveitasse, pelo mar pelo mar quebrar na costa”. Nicolau lhes deu um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um chapéu preto, primeiros objetos de origem europeia lançados no Brasil. Um dos índios ofereceu ao visitante “um sombreiro de penas de aves compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como as de papagaio, e outro lhe deu um ramal grande, de continhas brancas miúdas, que querem parecer aljaveira”. E com essa troca de chapéus, “se volveu a nau, por ser tarde e não poder deles haver fala por causa do mar”. Na sexta-feira pela manhã, Cabral fêz partir a esquadra rumo ao norte, aproveitando a brisa que soprava do sul, e “obra de dez léguas” do ponto de partida, encontrou um recife “com um porto dentro muito bom e seguro, com uma mui larga entrada, e meteram-se dentro e amainaram, e as naus arribaram obra de uma légua do recife, ancoraram-se em onze braças”.

Aí em Porto Seguro os descobridores fizeram verdadeiramente contato com a gente da  terra. O piloto Afonso Lopes, que ia num dos bateis da armada a reboque dos navios maiores, escolhido pelo capitão por ser “homem vivo e dextro”, saiu logo a sondar o porto, não tardando em ganhar a confiança dos indígenas, dois dos quais, “mancebos e de bons corpos”, um deles munidos de arco e seis ou sete setas, trouxe a noite para o barco do capitão, “onde foram recebidos com muito prazer e festa”.

Sábado pela manhã as naus se aproximaram mais da terra . “E tanto que as naus foram pousadas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do capitão-mor. E daqui mandou o capitão Nicolau Coelho e Bartholomeu Dias, que fosse um em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seus dois arcos e setas, aos quais mandou dar a cada um camisas novas e suas carapuças vermelhas e dois rosários de contas brancas de osso, que eles levavam nos braços, e seus cascáveis e companhias(…).

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Na manhã de domingo, de Pascoela, celebrou Frei Henrique de Coimbra, um dos franciscanos que iam na esquadra, a missa por todos assistidas, inclusive aborígenes reunidos nas praias fronteiras. Depois da pregação do Evangelho, rumaram portugueses nos seus batéis em direção ao continente, passeando ao longo do litoral, sem desembarcar. Novamente a bordo das naus, almoçaram e mais tarde permitiu-se o desembarque das tripulações. Os marinheiros facilmente misturavam-se com os bárbaros, dançando, rindo, tocando gaita e ate comento dos cocos da terra. Bartholomeu Dias preferiu pescar, e chegou a matar um tubarão. “Mandou o capitão aquele degradado Afonso Ribeiro que fosse outra vez com eles, o qual se foi e andou lá bom pedaço, e à tarde tornou-se, que o fizeram eles e não o quiseram lá consentir”. E assim, tornaram todos às naus, quase noite, a dormir. Ainda na segunda-feira, vieram os lusos à terra. Com o convívio anterior os naturais já se mostravam acessíveis, e dispostos a presentear os estranhos com as coisas bonitas de sua terra, como araras e papagaios, que na Europa viriam a ser tão apreciados que passariam a ser importados em grandes quantidades.

Primeiros mamelucos

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Na manhã imediata partiu a frota caminho da Índia, menos a nau de mantimentos que teve ordem de regressar a Lisboa com a boa nova do achamento da terra. Em terra ficaram, por ordem de Cabral, dois degredados, um dos quais o mesmo Afonso Ribeiro, e mais dois grumentes que, a noite anterior, seduzidos pelos atrativos da terra e certamente pela liberdade que esperavam gozar entre a indiada, haviam desertado num esquife. Ficaram apreensivos, apesar de tudo, a chorar, de acordo com o depoimento de caminha e do piloto da esquadra em sua Relação. Mas, para compensação, “os homens daquela terra os confortavam e mostravam ter piedade deles”. Um desses moços foi depois ao reino, e ainda veio a servir de intérprete ou língua, naquelas partes da terra de Vera Cruz. Nos vinte meses que ali permaneceram aqueles jovens, começou o longo e difícil processo de aculturação entre europeus e aborígenes em terras do Brasil. A mestiçagem com certeza iniciou-se na mesma ocasião com a ligação dos portugueses às índias. Desde que foram admitidos à convivência na taba local, os mancebos lusitanos devem ter recebido, como uma deferência característica daqueles povos, mulheres igualmente jovens para coabitação. Dessas uniões nasceram, não há por que duvidar, os primeiros mamelucos baianos.

Ibirapitanga

Um ano e tanto a três, depois da partida da esquadra, fundar-se-ia em Porto Seguro um núcleo de povoamento, pequena feitoria implantada ali por uma das duas expedições que, a seguir, percorreram a nossa costa: ou pela esquadra que partira de Lisboa em maio de 1501 e com a qual se encontrou a frota de Cabral perto de Cabo Verde, ao tornar do Oriente, ou mais provavelmente pela de Gonçalo Coelho. A criação desse povoado, próximo a um rio que por sua riqueza em madeira e tinta já era assinalado nos mapas de 1502 como “rio do Brasil”, ou “Ibirapitanga” na língua dos indígenas, antecedeu à de qualquer outro em todo o “Brasil”.

Bibliografia

AAZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

Veja no próximo, Parte III, ” os primeiros censos”, sábado 08/09/2018.

 

 

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