O POVOAMENTO DE SALVADOR (parte III)

CIDADE DO SALVADOR

Recaiu em Tomé de Souza, por insinuação do conde de Castanheira, a designação para primeiro governador geral do Brasil. A circunstância de ser neto de Moura e filho de um senhor Prior não o impediu de conquistar o título de fidalgo da casa Del-Rei, pelo sisudo desempenho de missões de responsabilidade em África e Ásia. Favoreciam-no ainda os laços de parentesco, bem que ilegítimo, com aquele ministro, e ainda com Martin Afonso e Pero Lopes de Souza, homens de inteira confiança do monarca.

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Desejoso do êxito da importante missão, D. João, depois de lavrar o regimento e a carta de nomeação, assinou leis complementares sobre o fisco e a justiça, e escreveu a Diogo Alvares Caramuru em novembro uma carta que remeteu por Gramatão Teles, recomendando-lhe ajudasse a Tomé de Souza e se prevenisse de “mantimentos da terra para provimento da gente que com ele vai”, devendo para isso procura-los nos portos das capitanias vizinhas em direção ao sul. No mesmo sentido dirigiu-se também ao genro daquele, Paulo Dias.

Feitas as nomeações do numeroso grupo de altos e pequenos funcionários que comporiam o governo geral, provedor-mor da fazenda, capitão-mor da costa, escrivão e tesoureiro das rendas, contador, escrivão da ouvidoria, feitores da armada e da cidade, físico, porteiro da alfândega  e uns trezentos mais, destacados que acompanhariam a expedição, e cerca de seiscentos operários, especializados, – a 1 de fevereiro de 1549 partia de Lisboa, sob o comando-mor do próprio Tomé de Souza, a esquadra de três naus grandes, duas caravelas e um bergantim, em direitura à Bahia. Com excelente viajem, chegou a expedição ao seu destino em 29 de março, “sem que sobreviesse nenhum contratempo e antes com muitos outros favores e graças a Deus, que bem mostrava sua obra que agora se principiou”, escrevera em carta, de 1549,  o padre Nobrega, 1549.

Todos ficaram encantados com a terra: “a terra achamo-la boa e sã. Todos estamos de saúde, Deus louvado, mais sãos do que partimos… A terra é fértil de tudo, ainda que algumas, por demasiados pingues só produzam a planta e não o fruto. É muito salubre e de bons ares, de sorte que sendo a nossa gente e mui grande as fadigas, e mudando de alimentação com que se nutriam, são poucos os que enfermam e estes depressa se curam.  A região grande que, de três partes em que se dividisse o mundo, ocuparia duas; é muito fresca e mais ou menos temperada, não se sentindo muito o calor do estio; tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos; no mar igualmente muito peixe e bom. Similham os montes grandes jardins e pomares, que me lembra ter visto pano de raz tão belo”. Traduziu o padre Nóbrega.

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Concluídos os preparativos, combinados entre Tomé de Souza, Diogo Alvares, Paulo Dias e outros moradores, para o alojamento provisório de toda gente, a 31 de março desembarcaram os portugueses em ordem de combate, para dar aos índios clara ideia da força que representavam, e marcharam para Vila Velha, á frente os padres com a cruz alçada em sinal de paz. Esperavam-nos, com demonstrações de muita alegria, quarenta a cinquenta colonos, restantes da população do tempo do donatário ( Pereira Coutinho).

A cidade surgia como nenhuma outra em seu tempo, com a considerável população de 1000 pessoas e uma completa organização judiciária, fazendária, administrativa e militar. No eclesiástico, ainda subordinada ao bispo de Funchal era paróquia e tinha pastor o vigário Manoel Lourenço; da catequese dos bárbaros eram encarregados os jesuítas. Vila Velha continuaria, uma espécie de subúrbio ligada a cidade pelo Caminho do Conselho, como residência de Caramuru e sua família e dos antigos moradores, ali dedicados à lavoura da mandioca e outros mantimentos que forneciam aos provadores.

Poligamia (Des) organizada

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A população da cidade do Salvador iria crescer rapidamente, ultrapassando os acanhado limites fortificados desta. A escassez de mulheres brancas, – que muito poucas famílias vieram na expedição, ia ter efeito paradoxal de favorecer aquele crescimento com a extraordinária natalidade resultante da união de muitos colonos com duas, três e até quatro índias, coisa que era corrente na terra entre os habitantes da Vila do Pereira e que não tardou a ser imitada pelos que chegaram em 49. Enquanto os índios eram violentamente submetidos e tomados para escravos ou para mandar vender no reino, as negras eram raptadas ou presas para mancebas dos brancos, com os quais viviam em escandalosa poligamia. Coabitando grande número de brancos com diversas índias cada um, é natural que tivesse muitos filhos, como verificou o Pe. Nóbrega. Quando a mulher, nessas uniões, era mameluca, é possível que ainda tivesse mais filhos.

Não se pense que para  esse estado de coisas concorriam somente a falta de mulheres brancas, os costumes indígenas ou a quantidade extraordinária de solteiros. Estes eram, de fato, a imensíssima maioria: jovens e solteiros, como sucede geralmente nas levas de migrantes. Os casados, que vinham para o Brasil sem suas famílias, entregavam-se aos mesmos desregramentos dos demais: “Por toda esta costa há muitos homens casados em Portugal e vivem cá em grandes pecados com muito prejuízo de suas mulheres e filhos…Geralmente todos os mais estão amancebados das portas a dentro com suas negras, casados e solteiros” (Nobrega, p.139). E não era so o padre que clamavam o ouvidor geral, desembargador Pero Borges, escrevia para Lisboa sobre os “muitos homens casados lá no reino os quais há muitos dias andam cá…amancebados com um par ao menos cada um de gentia”… O sertão também se ia rapidamente povoando de mamelucos, “filhos de cristãos, grandes e pequenos, machos e fêmeas, com viverem e se criarem nos costumes do gentio”. Nem todos os casados, porém, entravam na mestiçagem, esquecidos da família deixada em Portugal. Havia alguns que, “com grande saudade do reino, porque deixaram lá suas mulheres e filhos”, nem queriam aceitar trabalho na construção da casa dos jesuítas, só pensando em voltar para a Europa logo que acabassem o compromisso com as obras da cidade.

Continua na Parte IV.

 

 

 

 

 

Bibliografia

AZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

Veja no próximo, Parte IV, ”A cidade do Salvador, primeiros censos”, sábado 15/09/2018.

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