O POVOAMENTO DE SALVADOR (parteIV)

 

Engenho de açúcar: foto google

“EM MUITO CRECIMENTO”

Os trabalhos agrícolas em torno da cidade começavam a exigir braços. Para o trabalho nas roças de mantimentos, nos pomares, nos serviços domésticos, iam se utilizando os índios, para isso escravizados e trazidos à força para a cidade. À medida que se foram instalando os engenhos de açúcar e iniciando as plantações de cana, mais extensas e trabalhosas que aquelas, tornava-se evidente que os índios não satisfaziam. Além disso os padres da Cia. Opunham-se tenazmente à sua escravização. Melhor seria mandar vir escravos de África, em cujas ilhas os negros já haviam dado provas de sua capacidade de trabalho e sua submissão. Os próprios padres pensavam assim, muito embora se horrorizassem com a escravidão dos aborígenes, tanto que já em 1551 pediam ao rei lhes concedesse alguns negros da Guiné para o colégio dos meninos. É possível que, por então, já existissem africanos na Bahia, em reduzido número, trazidos no tempo de Pereira Coutinho, quando se fundavam os primeiros engenhos. Urgia traze-los em quantidades suficientes. Com a autorização real de 29 de março de 1549, para que cada senhor de engenho pudesse receber da Ilha de São Tomé até 120 escravos até 120 do Congo pagando só o terço do direito, já em 51 chegavam alguns pretos. Chegavam e iam morrendo das moléstias apanhadas na travessia do oceano; em uma carta do ano seguinte, o padre Nóbrega informava para Portugal “sobre os escravos que se tomaram, dos quais um morreu logo, que morreram outros muitos, que vinham já doentes do mar…(Accioli, p. 144). Esse facilidade de morrer, aliás foi notada por quantos a vida dos africanos no regime de escravatura.

Dentro em pouco não haveria português, por mais que fosse, homem ou mulher, que tivesse dois ou três escravos para lhe ganhar a vida; um engenho, para ser rendoso, requeira 80 a 100 negros, mas a grande mortandade os reduzia muitos. Apesar disso 1583 já os engenhos estavam “cheios de negros da Guiné e mui poucos da terra” ( registro de Viana Filho, L., pág. 45), prezando-se mais um escravo cafre, dizia Pyrard de Laval, que três da terra, pois estes eram menos fortes que os de Angola e Cabo Verde e mais depressa se deixariam matar do que obriga-los a fazer alguma coisa contra a sua vontade.

tráfico negreiro: foto google

O tráfico negreiro nessa segunda metade do século da descoberta não era muito intenso, de maneira que no tempo de Gabriel Soares e dos Pes. Cardim e Anchieta, cerca de 1583, existiam nas lavouras de cana e engenhos de açúcar uns 3.000 africanos; com os que trabalhavam noutras culturas, calcula Luís Viana, seriam uns sete mil. Para que, àquela data, houvesse tais quantidades, não há exagero em admitir que, descontados os que iam morrendo e envelhecendo, tivessem sido importadas em todo o século, umas vinte mil peças. Logo a seguir o tráfico tomou forte incremento, nem só para cobrir os claros abertos pela morte e atender aos reclamos crescentes dos novos engenhos, como para compensar a imprestabilidade e a escassez do gentio da terra, cada dia mais protegido por medidas contra sua escravização.

Mem de Sá (“em muito crescimento”)

     Men de Sá, quando em 1558 assumiu o governo geral, já encontrou a Bahia mas larga do que a antiga fortaleza; dos primitivos muros de taipa iam desaparecendo os vestígios. Dali a dois anos ele mesmo noticiava a El -rei que “a cidade vai em muito crescimento”, devido, certamente, ao espontâneo desenvolvimento da população e às medidas que tomou, logo ao chegar, contra a ociosidade, ódios e intrigas que lavravam na terra, e contra a insegurança resultante de luta com os índios, que não consentiam se abrissem fazendas senão a pequenas distância. Uma das resoluções que pôs em efeito, sem tardança, foi o aldeamento dos indígenas, nos arredores da cidade, sob a direção dos Pes. jesuítas.

Fome e bexiga e morte e despovoamento

Foto google

Em 1576 havia na cidade, em Vila Velha e no Julgado de Paripe, uns 1.100 vizinhos brancos, além de muitos índios mansos; e já se moía cana em numerosos engenhos. O número de habitantes na cidade não crescia muito porque os escravos africanos começavam a fugir, formando quilombos, onde se fortificavam, e muitos brancos viviam nos engenhos que por seu lado, multiplicavam-se rapidamente; a expansão pela costa, à procura de terras para a lavoura de mandioca, as primeiras entradas e a fundação do Rio de Janeiro, roubavam muita gente do arraial. Os que lidavam com o açúcar dividiam-se entre os seus engenhos e a cidade, obrigados a manter duas casas abertas para poder assistir ao fabrico e aos embarques. Uns oito anos depois daquela data os padres confessaram na capital 500 fiéis, somados brancos, índios e no recôncavo 5.402, fazendo nos engenhos 459 casamentos. Em 62 e 63 a fome e a bexiga eliminaram um número espantoso de índios e de escravos pretos; só de bexiga morreram, ao que se dizia, entre escravos e forros, uns 30 mil índios em menos de três meses, despovoando-se a maioria das aldeias jesuíticas. Apesar dessa alta mortalidade, habitavam a cidade quando Gabriel Soares, Cardim e Anchieta escreveram as suas obras (cerca de 1583), pouco mais ou menos 800 vizinhos, e por fora dela em todo Recôncavo 2.000 e tantos portugueses, 8.000 índios cristãos e três ou 4.000 escravos da Guiné. Numa necessidade de defesa, como as que se apresentaram em 87 e 99 com os ataques dos corsários ingleses e holandeses, podiam-se reunir uns 500 homens de cavalo, senhores de engenho, fazendeiros, comerciantes e altos funcionários, e mais  2.000 de pé, afora a gente dos navios que que estavam sempre no porto. Contavam-se já uns 40 engenhos e por toda a capitania sessenta e poucas igrejas espalhadas por dezesseis freguesias; os Pes. Da Cia. Queixavam entretanto de que somente 70 meninos, filhos de portugueses, frequentavam o seu colégio. A cidade não era muito grande, explicava Anchieta, “porque a maior parte da gente vive fora em seus engenhos e fazendas”. A cidade existia, como ainda hoje nas áreas exclusivamente agrícolas do Brasil como dependência ou órgão político, administrativo, comercial e religioso do campo circunvizinho. A população variava segundo as estações. Na época da moagem saía um ror de gente para o campo, – os senhores de engenho com as suas famílias e grande parte dos escravos, capatazes, mestres de fabrico do açúcar, e comissários que iam ver o produto para fazer preço; os mascates, com as suas caixas de miudezas, percorriam as propriedades rurais: os meirinhos, almotacéis e juízes da vintena faziam intimações, lançamentos e cobranças. Era também o tempo das festas religiosas e das missas solenes nas capelas dos engenhos. Só no inverno, de abril a junho, reabriam-se com o movimento de embarques dos “assuqueres” o comércio da Praia, no Terreiro corriam-se touros, saíam as procissões, tudo era animação e movimento.

 

 

Procissão da Boa morte: foto google

  

Bibliografia

AZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

Veja no próximo, Parte V, ” Primeiros censos”, sábado 22/09/2018.

 

CIRO 12

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