O POVOAMENTO DE SALVADOR (parte V)

Tribunal do Santo Ofício na Bahia, Judeus e cristãos-novos

As famílias estavam tão entrelaçadas que a maioria das questões se resolviam por composição entre as partes e em virtude do mútuo parentesco. Parentesco, esse em que se misturava, pelo que verificou a inquisição nas suas duas visitas à Bahia, muito sangue de judeu com sangue de índio e de cristão branco.

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É possível que os judeus tivessem começado a vir para o Brasil muito pouco depois da descoberta. Rodolfo Garcia aventa a hipótese de que tenham sido judeus com Fernão de Loronha, ou por esse trazidos, o Caramuru, João Ramalho, Francisco Chaves, o misterioso bacharel de cananeia, um castelhano que vivia no Rio Grande do Norte, entre os potiguaras, com o beiço furado, e alguns outros como os primeiros físicos ou selorgiões que vieram para a Bahia, – Jorge Fernandes, Afonso Mendes, Talvez Valadares. Entre a instauração do Tribunal do Santo Ofício em Portugal em 1547 e a proibição da emigração de judeus, para as colônias em 67, muitos israelitas devem ter vindo para a América portuguesa depois de terem estado algum tempo em Holanda, para onde haviam emigrado. Depois de 1577, quando aquela proibição foi suspensa, e particularmente após o domínio espanhol sobre Portugal, vinham diretamente ao Brasil, disfarçando o seu judaísmo como cristãos-novos ou conservando discretamente a fé mosaica que cultuavam numa sinagoga em Matoin ou na intimidade dos seus lares. A visitação do Santo Ofício no Brasil ao Brasil tinha muito em vista a desconfiança que o governo espanhol faziam aos judeus, suspeitos, como se veio a confirmar e os próprios holandeses admitiam, de cumplicidade com os invasores flamengos. Não que todos fossem capazes disso, mais uns 200 de origem ou proveniência holandesa passaram-se para os atacantes quando estes ocuparam a cidade em 1624. E estes diziam, no relatório dum espião mandado à Bahia por ocasião da ocupação de Pernambuco, que não era difícil dominar a cidade do Salvador uma vez que a população, além de muitos degredados, tinha uma porção de índios que lhes dariam ajuda por ódio aos espanhóis. Durante todo o período colonial foi de judeus a maioria do comércio baiano, em particular o negocio de financiamento e exportação do açúcar. Com a ameaça da vinda do inquisitor em 91, muitos se prepararam para a fuga, que quase não se verificou pela dificuldade de apurar, de um momento para outro, todos os seus haveres, pela escassez de transportes e confiança na benevolência das autoridades civis e eclesiásticas. Apenas alguns partiram para a África e para outras conquistas da América do Sul. Muitos poucos devem ter fugido pois que, dez anos depois, Pyrard del Laval admirava-se do grande número de cristão novos da Bahia; dizia-se na ocasião que o rei de Espanha queria estabelecer a inquisição novamente e, ao que parece, em caráter permanente no Brasil, com o que viviam amedrontados os israelitas. Afinal em 1618, com a nomeação da 2.ª missão apostólica, fugiram mais alguns para a Holanda, o Rio da Prata e as Antilhas, onde, com seus escravos, seus capitais e seus conhecimentos, introduziram a indústria do açúcar. Já adaptados à vida baiana pelo seu passado de contato multissecular com a civilização ibérica, da qual haviam incorporado muitos elementos, e especialmente a língua, esses sefardins nunca deixariam de contribuir para a vida econômica e a formação demográfica da Bahia. Em 1696 os baianos eram asseados, corteses e sérios, na opinião de um visitante francês, sendo muito afeiçoado ao comércio “e geralmente da raça judia”; quando alguém desejava ordenar um filho, precisava provar o cristianismo dos seus antepassados, exigência ditada pelo receio da infiltração da judiaria na Igreja. Essa, medida as Constituições do Arcebispado, de 1707, ainda mandavam cumprir, mas nunca foram observadas com rigor: os processos de vita et moribus, existentes no arquivo eclesiástico da Bahia, dos fins do século XVIII em diante conservam essas perguntas, porque se faziam por meio de folhas impressas que se remetiam aos vigários, mas quase sempre riscadas como para não ser preenchidas. A legislação portuguesa de 1773 também abolira as distinções entre cristãos velhos e novos. Assim, a vida dos judeus, que continuaram numerosos na Bahia, não oferecia os mesmos motivos de sobressalto, até porque, muito mais assimiláveis do que se crê ordinariamente, os antigos israelitas completavam o seu processo de aculturação, cristianizando-se não mais para se dissimular aos olhos dos inquisidores e das autoridades reinós, particularmente intolerantes no período da dominação espanhola, mas por força mesmo convívio e dos laços de família na sociedade brasileira, pela qual foram inteiramente assimilados.

 

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Senta Pua: foto google

 

 

Bibliografia

AZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

Veja no próximo, Parte final,  sábado 29/09/2018.

 

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