O POVOAMENTO DE SALVADOR (Parte final)

 

FREIRAS E PADRES

   

Muito se falou, em todo o período colonial, contra ida de moças brasileiras para ingressar em conventos de religiosas em Portugal. O fato era frequente e correspondia a um costume português, por meio do qual procuravam os pais evitar os casamentos que não julgavam compatíveis com a sua nobreza, a sua posição econômica ou as suas exigências morais. Nos conventos trancavam-se também as moças desviadas, como aquela de quem houve uma filha o famoso D. Francisco Manoel de Melo, autor do Fidalgo-Aprendiz, as mulheres de quem os maridos ciumavam ou das quais se queriam ver livres para se juntar as amantes de sua predileção.

E com aquilo cria-se que faltavam moças para casar. Indignado com esse estado de coisas, o conde dos Arcos, numa carta ao conde de Galvêas, externava-se cruamente dizendo que a Bahia era uma “terra de hotentotes” porque os pais ricos metiam as filhas de tenra idade nos conventos “com o pretexto de falta de casas de educação, mas com o fim delas não se casarem com os oficiais da guarnição”. O ultimo por sua vez, reclamava ao rei, em 1739, que em quatro anos de seu governo não houvera na Bahia mais de dois casamentos de gente de representação porque as moças ricas e nobres iam todas para o convento. A fundação, na Bahia, em 1677, do mosteiro de S. Clara do Desterro, só veio contribuir para piorar a situação na maneira de ver dos adversários daquele costume. A comunidade deveria constituir-se inicialmente com 50 religiosas de véu preto e 25 de véu branco encarregadas do trabalho material, numero que não se pôde logo preencher porque, segundo justificavam o governador e o arcebispo, não havia ainda renda suficiente para manter o convento com a comunidade completa. Em 1684 os oficiais do Senado da Câmara disputavam, junto ao rei, a preferência dos lugares de noviças para as filhas. Anos depois pleiteavam o aumento de 50 lugares de véu preto para 75, a custa da supressão dos 25 de véu branco que não interessavam a nenhuma candidata, dada a sua inferior categoria; não conseguindo deferimento, em 95 pediam a criação de mais 30 religiosas da categoria mais alta para as filhas dos nobres e ricos que serviam de juízes e vereadores. O pedido foi atendido em parte, vindo de Lisboa as designações para as filhas do juiz ordinário Francisco de Brito Sampaio, netas do mestre de campo Nicolau Aranha Pacheco, para as filhas de Diogo Nunes Barreto, Luis de Melo, Manoel Oliveira Pôrto, dos vereadores Antônio Fernandes Lima e José Teles de Menezes e do escrivão do Senado.

Nem assim eram satisfeitas todas pretendentes. Preocupado com a ida de várias destas para Portugal, o vice – rei D. João de Lencastro escrevia ao rei propondo se proibisse essa emigração. Em novembro o soberano, D. Pedro II, respondia-lhe desaprovando a sugestão, “inadmissível por muitas razões e inconveniente”. As reclamações, com o atrás se viu, continuaram pelo século seguinte, insistindo os adeptos da proibição em alcança-las das autoridades reinóis. Afinal, em 1755, o arcebispo D. José Botelho de Matos liquidou o assunto com a explicação ao Secretario de Estado de Estado, Diogo de Mendonça Côrte Real, escrevendo-lhe:

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Foto do google.

“Bem sei que há pessoas que ajuízam por muitas as freiras, que há nesta cidade, mas seguro a Vossa Ex. que este juízo não tem outro fundamento mais que o desabafarem alguns pretendentes por meio dele as paixões que concebem de certos pais não quererem dar suas filhas em matrimônio; e esta mágoa os terá obrigado a darem conta a S. M. pretextando talvez que 4 conventos de freiras, que há nesta cidade, são prejudiciais à propagação humana e à conservação do negócio. . .

“Nos 4 conventos, que há nesta cidade e seu arcebispado, não chegam a haver 200 freiras numerárias, pois com estas, que na forma do Breve peço a Soledade e Coração de Jesus, e com mais 13, que há tempos estou pedindo para o convento da Lapa, perfazem todas o número de 208 até 213, e dando a umas por outras 40 anos de vida depois de professas, virão a faltar em cada ano, um por outro, cinco freiras; e havendo nesta cidade e arcebispado tantas almas, como fica dito, não posso deixar de ajuizar por arrojo, mais que temerário, a conta que se deu a S. M. de que fariam falta 5 mulheres, que em cada ano tomam estado religioso e se desposam com Cristo, para a procriação humana”.

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Catequisação do indigenas: foto do Google

Dos padres se fizeram também muitas queixas, a começar pelo número dos mesmos. Dos abusos e vícios de que são acusados, forçoso é reconhecer que os queixosos não raro tinham sobrados motivos. Mas o Pe. Nóbrega cedo explicou uma coisa que havia de ser verdadeira por muitos e muitos anos: é que de Portugal nos vinha a escória do que lá havia em matéria de sacerdotes, – uns suspensos de ordens, outros rebeldes e insubmissos, que viviam fora de sujeição ao bispo, que nem se sujeitavam, padres e religiosos, a viver nos lugares que se designavam, muito menos nos conventos. O ambiente sexual da colônia, por seu lado, não favorecia a perseverança dos mais fracos, sobretudo quando se dispersavam pelas enormes distâncias entre as freguesias do sertão, fora da vigilância dos bispos e sem ter colega com quem se confessasse.. Não se depreenda daí que fosse geral esse descalabro, nem que corresse em facilidade a vida do padre. Os ordenados, além da sua tenuidade, eram frequentes vezes reduzidos pelas autoridades da metrópole; “ os excessivos longe da maior parte das freguesias do interior do país, em que há fregueses na distância de vinte, trinta e mais léguas”, obrigavam os párocos a demoradas viagens arriscadas e a outros grandes sacrifícios e esforços. Preparados de modo precário, sem a frequentação de estabelecimentos de formação apropriados, que somente no século XVIII, se estabeleceram precariamente a ponto de Diogo Feijó se ter ordenado sem nunca seguir curso regular, era natural que no clero houvesse gente com graves defeitos. Para substituir os jesuítas, ao extinguir-se a ordem benemérita, o marquês de Pombal fez ordenar e seguir para o Brasil padres preparados às pressas, em coisa de seis meses, recrutando sujeitos imbuídos de regalismo e por certo mais preocupados com a política e com o emprego do que com a religião. Havia também os que pediam ordens para fugir do serviço militar, ou que simplesmente eram destinados a ser padres por uma resolução do país, até por era quase o único modo de alcançar melhor instrução. “Isso explica o grande número de padres e frades do Brasil patriarcal sem que na realidade mostrassem todos eles vocação para essa carreira. Trata-se aí, explica judiciosamente o autor de Interpretação do Brasil, de uma situação pela qual não seria justo responsabilizar principalmente a Igreja, que aceitaria tais sacerdotes voluntários para conservar um clero formado por filhos da aristocracia territorial ou escravocrata. O sistema de monocultura latifundiária e patriarcal que dominou o Brasil até quase nossos dias é que parece ter sido o responsável principal por esses alianças entre as grandes famílias patriarcais e o altar.

A Igreja, que tanto fez pela civilização e formação moral do nosso povo, aceitando lutas com os governantes para reprimir os desregramentos e desmandos dos colonos que caracterizaram larga parte da nossa era colonial, empreendendo com grandes dificuldades o penoso trabalho de educação e evangelização dos silvícolas, dos pretos e dos próprios colonos, exercendo o seu ministério na assistência religiosa do povo nas mais distantes regiões do país, participando, com mártires e heróis, das lutas políticas, teve sempre o senso das proporções de certos problemas. Foi esse senso que lhe permitiu vencer, sem inúteis perturbações, males da gravidade desse das mancebias, dos adultérios, da indisciplina de elementos do clero, vitimas de uma multiplicidade de influências que as medidas isoladas do poder eclesiástico não teriam removido sem a paciência e a largueza de visão dos prelados portugueses e brasileiros.

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Seminário: foto do google

Bibliografia

AZEVEDO, Thales de, O Povoamento da Cidade do Salvador, Thales de Azevedo, Editora Itapuã, Bahia, 1969.

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