Crônicas do carnaval de Salvador

quarta-feira, 27 fevereiro, 2019

Da Redação ( de A Tarde)

Integrantes do Filhos de Gandhy inspira o texto A Primeira Noite de Um Homem

Carnaval Salvador 2019 Programação – Carnaval 2019 Bahia

 

 

CRÔNICAS DO CARNAVAL

 

O Carnaval pode ser visto de inúmeras formas. Cada olhar é um Carnaval. Na edição 253 (veiculada em 17 de fereiro), trouxemos textos com diferentes olhares, inspirados em títulos de filmes clássicos como A Primeira Noite de um Homem (1967), Houve Uma Vez um Verão (1971) e La Dolce Vita (1960). As histórias cinematográficas inspiraram crônicas que descrevem amores que nascem na avenida. Seja o olhar de um estrangeiro, ao ver um trio elétrico pela primeira vez, a experiência inesquecível de sair no Gandhy ou a sensação de dançar o arrocha, ouvindo cantadas ao pé do ouvido. Um território tão contraditório quanto livre. As cordas, os camarotes, as celebridades, as diferenças, tudo que cruza a festa é também incorporado por ela e explode nas ruas, como  contaram, cada um do seu jeito, Aninha Franco, Martim Fox, Vaguinaldo Marinheiro, Carla Bittencourt, Diego Damasceno e Cássia Candra. Aqui, algumas das crônicas publicadas:

 

Houve uma vez um verão, por Carla Bittencourt (jornalista e editora de A TARDINHA)

Eu saí atrás de você, Berenice. E toda colombina tinha seu rosto, a boca de um vermelho tão vivo, você fica linda de batom, pena que nunca usa. Queria de cabelo solto, minha mão alisando assim quase com medo, que nem quando a gente pega passarinho que caiu no chão, esquecido de voar. Não sei quantas horas fiquei ali parado, em Ondina, o som dos trios vibrando tudo por dentro, foi dançando, dançation e eu comprando retalhos de cigarro, arrependido de ter ido de sandália japonesa, rezando pra que algum dos tênis sujos que pisavam meu pé fossem seus, a canela hippie de fitinha do Bonfim. E você daria aquele jeito que você tem de dizer “Hum, de havaiana”, só pra me lembrar o nome certo das coisas. Estava meio bêbado quando desisti. Até dei um beijo numa menina que me pediu cigarro – meu gesto de Gandhy decadente – quando você passou segurando uma piriguete, toda desencontrada da música, cantando Pablo, eu disse pra você pra não se apaixonar. Um dejá vu fingindo que sabia dançar arrocha. Guardei as dúvidas e me entendi segurando seu braço, meu coração querendo sair junto com qualquer oi, consegui falar “Você está linda”. O olho de purpurina, um cheiro de flor, uma quentura sobrenatural. “Prove isso aqui”, você me ofereceu, sujando a ponta do dedo num saquinho de açúcar, não deu tempo de entender, eu beijei seu dedo, eu beijei você. E você era a razão de existir avenida, de eu nem ficar com vergonha de ter querido chorar porque Saulo disse “é tão maravilhoso nosso amor”. Pronto, ele emendou “esse cara sou eu” e eu virei esse cara, morro pacificado, e a gente estava em outro planeta, andando de bicicleta. Deu muita vontade de dizer “fuja comigo, preta, vamos dar a camisa do camarote metido a besta a um cordeiro, vamos nadar pelados atrás do Farol. Vamos acordar amanhã de manhã, quando a felicidade tiver desabado sobre os homens”. Mas eu não disse nada, Berê, eu só contei isso pra alguém e não se zangue porque vão escrever. Aí você faz de conta que sou eu dizendo. Porque sou.

 

Encontros e desencontros, por Martim Fox (cineasta)

Como fazer para que alguém fale mal de sua própria festa? Não pode. Impossível. O que primeiro me passou sobre o Carnaval foi sua propaganda. Não venha, é perigoso, violento…. No entanto, será a melhor experiência da sua vida. Com tanta oferta, a curiosidade saiu ganhando. Gente de cá para lá e de lá para cá é o que primeiro se vê, seja em Salvador, Cuartetero em Córdoba, Argentina, em Oruru na Bolivia e no Cajamaquino, no Peru. Os grupamentos humanos são iguais em todo lugar, principalmente quando as diferenças são tão marcantes. Em todos, repete-se o mesmo: cheiro de mijo nas ruas, gente que tenta te vender algo. O medo vai indo embora. Ninguém me rouba, me espanca ou quer me matar… Ao contrário, gente nas ruas, felizes, dançando, cantando, embriagando-se. Voce vai andando e aparece um monumento gigantesco: um trio elétrico, um caminhão monstro, cheio de música, cor e brilhos. Me senti como um índio vendo os espanhóis descerem de suas caravelas. No chão,  aparece uma corda azul, grossa, sempre tensionada, cheia de nós, conduzida por homens que estão no limite de se unir a festa ou cumprir seu dever. Formam uma cerca orgânica, viva, de onde aparece o verdadeiro reflexo do carnaval. Gente com uniforme colorido, que pagou por marca vistosa para sentir-se por um par de horas maior e mais importante que seu vizinho. Com o poder efêmero e temporário de pertencer a algo, seja no camarote ou na corda. No entanto, visto de fora, para além das cordas, tem o cara que foi dançar,  divertir-se,  comprar cerveja  e andar pela cidade. Não lhe importa ser parte do show que uma festa desta estatura impõe, já que não caiu no conto do uniforme e, para ele, essa felicidade é o significado da festa, desde que ela foi criada. Essa gente que vem de cá para lá  é isso. Os que querem ser livres e os que têm medo da felicidade, e  escondem-se atrás das grossas cordas azuis ou no alto dos camarotes, de onde assistem passar aquele que escolheu ser feliz. Ser livre. Ao menos, por um par de dias.

 

A primeira noite de um homem, por Vaguinaldo Marinheiro (diretor de redação de A TARDE)

Cara Mrs. Robinson*,

Tenho que lhe dizer uma coisa. Você continua inesquecível, por uma série de razões, mas nos últimos dias aconteceram tantas “primeiras vezes” que está difícil encontrar  lugar na memória para acomodar tudo. Primeiro Carnaval em Salvador, primeiro camarote, primeira pipoca, primeiro Pelourinho, primeiro desfile com os Filhos de Ghandy… Imagine eu, totalmente paramentado, de branco, do turbante ao chinelo. Aleguei para mim mesmo que tudo era questão profissional. Afinal, preciso entender a cidade e me comprometi  a escrever um texto sobre as experiências para uma revista chamada Muito!. Você devia conhecê-la. É muito boa. Nos últimos anos tenho repetido que não gosto mais de Carnaval. Mas isso aqui é diferente. É um compêndio sobre o ser humano. Os seis, sete ou dez, doze dias de Carnaval de Salvador (nem eles sabem quando começa ou acaba) valem mais que dois semestres de antropologia numa Sorbonne da vida. Tem violência? Tem. Afinal, o homem é o lobo do homem. Tem apartheid social? Tem, vide a diferença entre os que andam de vans com segurança, os que disputam um táxi  e os que se apinham nos pontos de ônibus. Mas, sem ser ingênuo, o que mais tem é uma democratização da alegria. Dentro ou fora da corda, no alto dos camarotes ou embaixo, na rua, a grande maioria entoa as mesmas músicas, dança a mesma coreografia. Nessa hora, é fácil distinguir os locais (talentosos) dos turistas (desengonçados). As roupas também tentam nivelar as pessoas. Nada de fantasias luxuosas. O uniforme é a camiseta:  do bloco, do camarote ou própria. Em comum, o mesmo tecido vagabundo. E tem uma coisa que você aprecia muito, se ainda mantém o fogo daqueles anos 1960: preliminar de sexo para todo lado. É beijo na boca que não acaba mais. Difícil é dizer o quanto disso vira aquilo que os mamíferos gostam de fazer. Venha conhecer e faça uma aposta. Como eles dizem aqui, “para o ano” tem mais.

*Mrs. Robinson é a personagem interpretada por Anne Bancroft  no filme A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nicholls

Fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/materias/1485193-confira-cronicas-sobre-o-carnaval-de-salvador

Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante.

Dorinha, como se recorda, acidentou-se no último carnaval, quando desfilou na Sapucaí como madrinha da bateria de uma escola. Ela não conseguiu acompanhar o ritmo da escola e foi atropelada pela bateria.

Além dos arranhões e da perda de miçangas sofreu o que ela chama de “escoriações morais”, pois foi bem na frente do camarote da Brahma.

Este ano Dorinha desfilará outra vez como madrinha da bateria, mas de patinete. Como todos os anos, ela preparou-se para o carnaval internando-se no Pitanguy durante quatro meses, só saindo de lá com a garantia de que nada que foi esticado se soltaria na avenida, por mais que ela rebolasse.

Dorinha também diz que… Mas deixemos que ela mesmo nos conte. Sua carta veio em papel roxo, escrita com tinta carmim e cheirando a Mange Moi, o perfume que tira o sono Papa.

“Caríssimo! Beijíssimos!

Sim, estarei na avenida de novo, recordando meus velhos triunfos.

Você se lembra da vez em que desfilei completamente nua com apenas um retratinho do Fernando Henrique como tapa-sexo, para protestar contra a política econômica do seu governo? Como eu ia saber que a política econômica do Lula seria igual à do Fernando Henrique, só que de barba? Pensei em repetir a fantasia trocando o retratinho mas um tapa-sexo barbudo poderia ser mal interpretado.

Minhas manifestações políticas não foram em vão, no entanto. Até hoje tenho certeza que aquela minha alegoria sobre a necessidade de renovação na política, usando a renovação dos meus seios como exemplo, foi responsável pelo afastamento do cenário nacional de figuras como José Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho, de quem nunca mais se ouviu falar, se é que não estou mal informada.

Minhas companheiras do grupo de pressão Socialaites Socialistas, que luta pela instalação no Brasil do socialismo no seu estágio mais avançado, que é o fim — Tatiana (“Tati”) Bitati, Betania (“Be”) Steira, Cristina (“Kika”) Tástrofe e as outras — formarão uma ala toda de tailleur e carregando motosserras, simbolizando a Dilma e os cortes no Orçamento.

Não pretendo ser abalroada de novo pela bateria, mas se acontecer já combinei com o Gustavão, que toca surdo de repique, para me salvar. Estou chegando naquela idade em que o repique começa a ser um conceito interessante. Ainda se diz ziriguidum?

Beijão da tua Dorinha.”

Fonte: Blog do Noblat

 

Carnaval em Salvador.

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Bom carnaval para todos.