ENTRE NA RODA (parte I)

 

“Num mundo altamente tecnológico, podemos esquecer nossa própria bondade e passar a valorizar nossas habilidades e proficiências. Mas não é isso que vai reconstruir o mundo. O futuro pode depender menos de nossas habilidades e mais de nossa lealdade a vida.”

Rachel Naomi Remem

 

A vida como espaço de formação

Conceber a vida como espaço de formação implica colocar-se em situação de aprendizagem onde quer que estejamos, durante todas as suas fases. Tradicionalmente nos referimos à formação como o período em que frequentamos as instituições de ensino de tempo limitado. A proposta de tomar a vida como espaço de formação é assumir, como adultos, que todas as experiências, tanto as que tivemos nas instituições de ensino quanto fora delas, são potenciais oportunidades de formação. E que não se restringe, portanto, aos anos de escola ou àqueles em que nos dedicamos a “aprender uma profissão”. A formação a ser entendida como “dar-se uma forma”, como se dá ao barro ou à pedra moldados por um artista, a partir de como se manipula, das ferramentas que utiliza, dos movimentos que faz. “Dar-se uma forma” durante a vida depende da flexibilidade e da resistência com que recebemos  e de como reagimos aos movimentos vindos ”de fora” e àqueles vindos “de dentro” – nossas emoções, mais ou menos conscientes, nossas reflexões sobre o vivido, a interpretação e os sentidos que lhes atribuímos.

O processo de “dar-se uma forma” durante toda a vida é favorecido por uma postura ativa de reflexão, tomadas de consciência e proposição interna de aprender e de se desenvolver nos vários contextos da vida, aproveitando e/ou criando oportunidades de reflexão, partilha e até treino de valores e habilidades que não tivemos chance de desenvolver em nossa história de vida, e que agora identificamos como importantes, senão vitais. O cientista, monge e escritor Matthieu Ricard, por exemplo, fala da possibilidade de aprendermos o altruísmo.¹

 

            Temos a capacidade de nos familiarizar com novas maneiras de pensar e com     qualidades     presentes em nós em estado embrionário mas que desenvolveremos graças a um treinamento. Contemplar os benefícios do altruísmo nos encoraja a engajarmos – nos nesse processo. Além do mais, a melhor compreensão dos mecanismos desse treinamento permite – nos perceber toda a dimensão do nosso potencial de mudança.(1)

 

A “metodologia das histórias de vida em formação” tem sido cada vez mais conhecida no Brasil e utilizada em vários países da Europa para dar suporte a práticas e pesquisas no campo da formação de adultos a partir dessa concepção de formação. Em Rodas em Redes tratei dessa metodologia do ponto de vista teórico e prático, a partir de grupos de formação nos quais cada participante fazia uma narrativa de sua história de vida e o grupo o auxiliava nesse trabalho interno de análise e atribuição de sentido no contexto geral de sua história de vida. Esses grupos ora eram ligados a uma instituição de formação, ora eram independentes. Em Entre na Roda!, faço o relato de outros contextos nos quais essa metodologia foi utilizada, entre eles uma empresa com vários grupos de profissionais a pesquisar a própria história como meio de abrir-se para as histórias, projetos de vidas e desafios das equipes de trabalho, suas motivações e diferenças.

Nessa empresa, foram cinco anos elaborando atividades de diferentes níveis de profundidade, a partir das necessidades e da abertura encontrada. Tanto por intermédio das narrativas das histórias de vida propriamente ditas, quando o grupo era acolhedor a esse ponto, quanto por meio de outras atividades autoformativas, os vários, os vários grupos avançavam em ritmo próprio, acolhendo os demais e constituindo um “ambiente formativo”. Esse ambiente torna-se promotor de novas atividades que favorecem o processo de “dar-se uma forma” na medida em que seus gestores compreendem essa concepção de formação, vivenciada por eles próprios.

As vivencias nesses diferentes grupos de formação, desde os mais formais e informais, e em diferentes contextos de vida e de trabalho evidenciam que a capacidade de “dar-se uma forma” independe de espaços específicos, mesmo que sejam favorecidos por ambientes nos quais haja espaço para a criatividade, para o “erro”, para a surpresa, para a partilha de experiências e dos sentidos atribuídos a elas. Além de alargar os espaços de formação, incluindo todos aqueles em que temos experiências significativas, essa concepção de formação alarga também os tempos de formação: qualquer etapa da vida é entendida como momento de formação, inclusive a velhice, ou quando a morte se aproxima, como mostra a medica Rachel Naomi Remem no livro Histórias que curam

A “formação ao longo da vida” é cada vez mais estudada graças ao aumento da expectativa de vida. E é cada vez mais relevante para as novas gerações que, ao se aposentarem ou reduzirem progressivamente suas atividades profissionais, necessitarão de novos referenciais, diferentes dos que até então eram constitutivos de grande parte de sua identidade.

Se a capacidade de se maravilhar com a vida e de se surpreender com novas descobertas é natural na infância, pode ser uma ferramenta para jovens e adultos continuarem a se desenvolver nas dimensões de vida que lhes são possíveis a cada momento. Enquanto as possibilidades da dimensão corporal decaem, outras podem se ampliar, como a cognitiva, a emocional, a efetiva ou mesmo a espiritual, em uma abertura ao mistério, à transcendência. Como sublinha a psicanalista Mireille Cifali Bega, “trata-se deum trabalho paciente, para o qual é preciso sensibilidade e aceitar que não se trata de puro exercício intelectual, mas que é também emoção, às vezes viva demais para se partilhar ou se declarar”.³ Um trabalho a ser feito o quanto antes, quando ainda podemos observar, como que a distância, nossas próprias emoções e as capacidades cognitivas e intelectuais de que dispomos. Um processo continuo de amadurecimento emocional, assim como tomadas de consciências de si, de nossa própria incompletude e singularidades. De certa forma, uma reaprendizagem do maravilhar-se com a vida.

E, se “é a partir dessa capacidade de se surpreender que os profissionais encontram força para tirar aqueles com quem trabalham de sua letargia”,(4) este é um trabalho importante para gestores nas empresas, ou para pais e educadores nos diferentes níveis de ensino.

  1. ­­­­­­­Ricar, Martieu. A revolução do Autruísmo. São Paulo: Palas Athenas, 2015, p.57
  2. Remem, Rachel Naomi. Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogão. São Paulo: Ágora, 1998
  3. Cifali Bega, Mireille. “Une cliniciènne saicie d`etonnement” Éducation Permanente, nº 200, 2014, p.148
  4. Idem,p. 149

Referência bibliográfica

Texto extraído do Livro  Cecília Warschauer, ENTRE NA RODA, A formação humana nas escolas e organizações, 1ª edição – Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

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