GUERRA PELA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA (Parte final)

sábado, 6 abril, 2019

 

Apresentaremos nessa edição a parte final breve histórico sobre os importantes acontecimentos e episódios que marcaram a História da Bahia. A derrota de Madeira de Melo, chegada triunfal na Lapinha dos soldados brasileiros. A biografia é do professor doutor Luís Henrique Dias Tavares. Vale a pena conhecer, boa leitura.

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Imagem da Cabocla no 2 de julho: foto google

 

O 2 de Julho

 

    O Exército brasileiro somava 10.139 homens em armas. O Exército português estava cercado por mar e terra. Tinha 4.520 homens e alimento para quarenta dias. Havia fome. A 2 de Junho o brigadeiro Madeira de Melo nomeou outra junta, composta por Paulo José de Melo Azevedo Brito, Francisco Beléns, Manoel Peixoto, José Antônio Rodrigues Viana e Francisco de Sousa Carvalho. Tomaram posse exigindo de Madeira de Melo ações agressivas, ao que ele não deu respostas. Na proclamação aos portugueses, o coronel Lima e Silva acentuou: “Em pouco tempo, sem que seja mesmo preciso atacar-vos, estareis inteiramente aniquilados…vêde, lusitanos, a trite sorte que vos espera”. Parecia que existia por aqueles dias o projeto de o brigadeiro Madeira de Melo deixar a Bahia com o Exército para ir ocupar São Luís e Belém.

A 3 de junho o coronel Lima e Silva ordenou o ataque contra as trincheiras portuguesas. Foi comandado pelo coronel Felisberto Gomes Caldeira. No avanço para São Pedro, libertou as povoações de Brotas, Pituba e Rio Vermelho. Em ofício para o coronel Lima e Silva, elogiou o heroísmo do soldado pernambucano Francisco Luís, de apenas catorze anos, e o paraibano Manuel de Abreu França. Aprisionado por três soldados portugueses, um deste braço quebrado, aproveitou-se do instante em que um dos dois separou-se para ir aprisionar outros brasileiros e matou com golpe de peixeira o que o segurava, fugindo depois. O comandante da 2ª divisão também destacou a ação dos majores Argolo e Alcântara na tomada da povoação do Rio Vermelho.

O Batalhão dos Periquitos tomou Cruz  do Cosme sob o comando do sargento-mor José Antônio da Silva Castro. Essas vitórias e atos heroicos eram seguidos pela fome e nudez dos soldados brasileiros. Por um cálculo da época, o Exército abatia por dia sessenta bois e gastava muitos alqueires de farinha de mandioca. Não eram suficientes. Em ofício para o conselho interino, o coronel Lima e Silva reclamou: “Os soldados clamam com fome e frio. Como hei de levar ao fogo corpos carcomidos de fome?”. Um mapa demonstrativo de abril de 1823 acentuava que o Exército tinha 10.148 homens localizados de Pirajá à ilha de Maré e Boca do Rio.

A situação na cidade do Salvador era pior. Reunida com a Câmara, a nova Junta, quase toda de comerciantes portugueses, pretendeu que as forças portuguesas de terra e mar atacassem a ilha de Itaparica, o recôncavo e morro de São Paulo, ponto de abrigo escolhido por Lord Crochrane para descanso e aguada da esquadra brasileira. Estimavam que as despesas seriam cobertas pelos “cofres públicos”, dinheiro das irmandades e o ouro e prata das igrejas. Comerciantes da cidade dirigiram-se ao Conselho Interino pedindo garantias de liberdade e segurança de seus bens. Em 24 de junho, o coronel Lima e Silva assegurou “que nenhum individuo, ou soldado haja de perturbar o socego, ou tranquilidade pública, e pessoal, atacando ou ofendendo a qualquer pessoa que seja, por motivo ou pretexto de sua opinião política”.

Nomeado pelo imperador Pedro I em dezembro de 1822, só em 25 de junho de 1823 tomou posse em Cachoeira a Junta de Governo da Província da Bahia, composta por Francisco Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque (presidente), Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos (secretário), tendo com vogais Joaquim Inácio de Siqueira Bulcão, José Joaquim Moniz Barreto de Aragão, Antônio Augusto da Silva, Manuel Gonçalves Maia Bitencourt e coronel Felisberto Gomes Caldeira. Certo da impossibilidade de manter a guerra, o brigadeiro Madeira de Melo autorizou negociações para o embarque do Exército português e sua saída da baia de todos os Santos. Convidou para essa missão o proprietário das terras do Rio vermelho, Amaralina e Pituba, Manuel Inácio da Cunha Menezes, posteriormente visconde do Rio vermelho. Ele foi discutir os possíveis itens da rendição com o coronel Lima e Silva no dia 30 de junho. Lima e Silva respondeu exigindo capitulação.

O embarque do Exército português se realizou na madrugada de 2 de julho. A cidade do Salvador amanheceu quase deserta. No quartel de Pirajá já estava programado quando seria ocupada. O dia 2 de julho apresentou-se bonito. Cessaram-se as chuvas de junho e o sol brilhava. Uma força de vanguarda se movimentou sob o comando do coronel Antero José Ferreira de Brito para explorar os pontos trincheiras abandonadas pelos portugueses. Seguiram-no os batalhões comandados pelo coronel Lima e Silva e pelo coronel José Barros Falcão, tendo a frente o batalhão do Imperador, que recém chegara do Rio de Janeiro, seguindo-se o batalhão de Pernambuco, comandado pelo major Tomás Pereira de Melo e Silva. Vinha na retaguarda o grosso dos soldados. Estavam descalços e quase nus por causa das fardas rasgadas. Os negros do batalhão dos libertos imperiais fechava a marcha. Esta foi a parte do Exército que entrou na cidade do Salvador utilizando-se da estrada das boiadas. Foi festejado pelas freiras do convento da Soledade, “grupos de cidadãos de todas as ordens dando viva ao Imperador”, que soltavam foguetes, “e senhoras vestidas das cores verdes e amarelas lançaram das janelas, entre aplausos vivos, odoríferas flores sobre a oficialidade e soldados”, conforme descreveu Lima e Silva no ofício dirigido a dom Pedro em 6 de julho.

Outra parte do Exército marchou do Rio Vermelho comandada pelo coronel Felisberto Gomes Caldeira. O batalhão comandado pelo major Marques Pitanga ocupou o forte de São Pedro. O forte do Barbalho foi ocupado pelo alferes José Adrião. Horas depois, o Exercito chegou ao Terreiro de Jesus. Piedade, Hospício, Colégio de São Joaquim, Seminário de São Damaso e quartéis da Mouraria, Palma, Barbalho e São Pedro. Somavam 7.783 homens.

Data máxima da Bahia, o 2 de julho e igualmente data histórica do Brasil.

Com a vitória do Exército e da Marinha do Brasil na Bahia, naquele julho de 1823 consolidou-se a separação política do Brasil de Portugal e anulou-se o perigo de um ponto de apoio para qualquer intervenção armada da Europa, hipótese possível no desdobramento de uma politica que já executara intervenções armadas na Espanha e no Piemonte (Itália). 2 de julho ficou na reverência patriótica dos baianos que desde de logo estabeleceram a tradição de comemora-lo anualmente com repetição da entrada do Exército Pacificador na cidade de Salvador. Aos batalhões e aos heróis mais conhecidos foram acrescentadas, posteriormente, as figuras simbólicas do Caboclo e da Cabocla. Entre muitos 2 de julho, há o de 1849, quando o Marechal Pedro Labatut participou do Desfile. Estava velho, doente e sem recursos financeiros. Viera a Salvador agradecer o auxílio da Bahia á sua filha Januária Constança Labatut. Desfilou pelas ruas centrais da cidade festiva e orgulhosa da campanha militar de 1822/1823, dos heróis conhecidos e anônimos das lutas no recôncavo, área de Cabrito – campinas – Pirajá e em Conceição, Boa Vista, Graça, Bate-Folha, Lapinha.

 

 

 

Fonte bibliográfica

TAVARES, Luís Henrique Dias, 1926-

História da Bahia/ Luís Henrique Dias Tavares.

–São Paulo : Editora UNESP : Salvador, BA :

EDUFBA, 2001.