Sem projeto para reativar economia, governo Bolsonaro reduz em 60% alta do PIB

Todos os indicadores estão em queda; previsão do PIB encolhe de 2% para 0,8%

GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O Banco Central do Brasil gastou 54 páginas no Relatório Trimestral de inflação do 2º trimestre, divulgado nesta quinta-feira, 27, para explicar porque a economia está andando de lado.

Ricamente ilustrado, com gráficos e boxes, que até incluem estudo especial sobre a demora da reinclusão dos demitidos no mercado de trabalho, após a recessão de meados de 2014 a meados de 2017, o RTI não faz o mea culpa de seus erros em não forçar – desde o gpverno Temer, na gestão Ilan Goldfjan – a queda mais pronunciada dos juros bancários.

Vale conferir no endereço https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/ri/201906/ri201906p.pdf a falta de autocrítica do BCB (e do Comitê de Política Monetária – Copom) para os erros cometidos.

Macaque in the trees
Presidente da República, Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O governo Temer, oriundo do PBMB (que depois da posse do vice de Dilma Roussef, que era presidente de honra do partido, tirou o P e virou MDB), lançou o documento “Ponte para o futuro” e a equipe econômica – comandada por Henrique Meirelles e, depois de maio de 2018, por Eduardo Guardia – deixou uma série de importantes diagnósticos sobre a economia.

Boa parte dos estudos, sobre estatais, impacto dos servidores e militares no déficit previdenciário, infraestrutura, e privatizações foi aproveitada por Paulo Guedes&Cia.

Faltou ao governo Bolsonaro criar estímulos à Economia para 2019, como na retomada dos projetos de infraestrutura, que emagreceram a construção civil. A economia que vinha perdendo ritmo desde a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, ficou atrelada à reforma da Previdência como tábua de salvação. E esta só vai produzir resultados a partir de 2021.

As reduções são consideráveis

Em relação ao RTI de março, quando o clima do governo era de otimismo e o Ibovespa chegou a romper os 100 mil pontos, nível ao qual não resistiu hoje, houve quedas consideráveis, sobretudo na indústria de transformação: em vez da alta de 1,8%, o governo agora prevê queda de 0,3%. Parte da reversão veio da piora do cenário externo, com redução das exportações para China, Argentina (que compra muitos manufaturados) e Europa.

O PIB teve encolhimento de 60% ante a previsão inicial de 2%, para os atuais 0,8%. Isto tem impacto em todos os segmentos e na sociedade. Para começar, haverá menos dinheiro circulando, sob a forma de renda, salários, investimentos, produção e consumo. E mais risco de demorar a reverter a fila do desemprego. E a menor arrecadação compromete a prestação de serviços pelos governos (federal, estaduais e municipais).

Do lado da produção vejam algumas mudanças em relação ao RTI de março:

PIB agrícola ia crescer 1%; será o único segmento a melhorar, para 1,1%;

PIB industrial como um todo encolhe de 1,8% para 0,2% (queda de 89%).

A maior queda é na indústria de transformação, que troca alta de 1,8% por retração de 0,3%.

A indústria extrativa (mineração e exploração de petróleo e gás) teve a expansão revista de 3,2% para 1,5% (queda de 53%) e não foi apenas pelos problemas da Vale em Brumadinho e MG, mas também pela parada de produção de campos da Petrobras.

A indústria de Construção Civil teve a alta de 0,5% transformada em queda de 1,1%.

O setor de serviços, que representa mais de 70% do PIB e é o maior empregador do país, teve a expansão revista pela metade: de 2% para 1%.

No lado da demanda, o consumo das famílias, que representa mais de 60% do PIB, vai encolher de uma alta prevista de 2,2% em março para 1,4%% (uma queda de 36%, ou pouco mais de um terço).

Pepino para os tomadores de crédito

As consequências de uma economia que deve encolher em relação às projeções e às esperanças depositadas podem sobrar para as pessoas físicas.

Há algum tempo, com a recessão da economia e a retração do crédito das empresas envolvidas nos esquemas de corrupção descobertas pela Lava-Jato, o cartel bancário (5 bancos controlam mais de 80% do crédito do país), concentrou suas operações nas pessoas físicas, que pagam juros mais altos que as jurídicas.

Em março, o BC tinha previsto que o crédito às PJ (incluindo das grandes, que estão retraídas e têm meios de captar recursos diretamente no mercado, via debêntures, outros títulos de crédito ou emissões de ações, às pequenas e médias empresas) ia crescer 4,1%. Pois vai crescer apenas 2,5% na nova revisão do RTI (queda de 39%).

Como os bancos não podem perder lucros (sempre dão um jeito de ganhar mais em cima dos correntistas ou tomadores de crédito), miraram nos clientes pessoas físicas. Para esses foi mantida a previsão de expansão de 9,7% no crédito. Com juros escorchantes no cartão de crédito (e na alternativa do crédito pessoal para o endividamento no CC ou no cheque especial), a lógica vai ser o aumento da inadimplência.

Inflação cai, mas juros sobem

Nada menos de 63 milhões de brasileiros estão com débitos em atraso em contas de serviços, cartões e carnês, além de financiamentos.

Também pudera. Com a inflação declinando e apontando para taxas anuais abaixo de 4% até 2021, os juros mensais com recursos livres para pessoas físicas até sobem e estavam em maio em 3,6%. Isso significa um custo de 52,86% ao ano.

Só que as taxas do rotativo do cartão de crédito e do crédito pessoal não consignado são de, respectivamente, 11,8% e 6,8¨ao mês. Ou de 381,33% ao ano e 220,22%.

Detalhe, o crédito da Crefisa, aquela que empresta “até a negativados” (sic), estava em 937,22% ao ano, entre os dias 6 e 12 de junho, segundo levantamento do Banco Central.

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