Machado de Assis e a política

Pedro II ao partir, sob condições injustas de desprestígio, deixava uma governação de cinqüenta anos de respeito à cultura e de uma certa magnanimidade, mas de pouca atenção ao Nordeste do país. Seu tempo não aponta apenas a maldade da estatística ao revelar que ficara no Brasil uma nobreza de sete marqueses e uma marquesa viúva. Dez condes e dez condessas viúvas. Vinte viscondes e dezoito viscondessas viúvas. Vinte e sete barões e onze baronesas viúvas. Era viúva demais…

Tornou-se consensual que Machado de Assis não se apaixona pela política. Inegavelmente nunca a ignorou como cronista ou romancista. Por isso mesmo, participou também da acesa discussão sobre a transferência da capital do país.

Falava-se em instalar o governo da República em cidades serranas do estado do Rio de Janeiro, mas Cruls já batia pernas pelo Planalto Central, cuidando dos instantes seminais do que mais tarde viria a ser Brasília. E Machado opinava:

“Não há dúvida que uma capital é obra dos tempos, filha da História. As novas devemos esperar que serão habitadas logo que sejam habitáveis. O resto virá com os anos”.

E ainda:

“A Capital da República, uma vez estabelecida, receberá um nome deveras, em vez deste que ora temos, mero qualificativo. Não sei se viverei até a inauguração. A vida é tão curta, e morte tão incerta, que a inauguração pode fazer-se sem mim, e tão certo é o esquecimento que não darão pela minha falta”.

Foi mesmo assim, só que seu nome nunca restou esquecido em Brasília. O Senado da República e os meios acadêmicos nunca o permitiram.

Não se deixam de anotar muitas amostragens do interesse de Machado pela política, não na militância das ruas, mas na consideração do seu papel catalisador.

Brito Broca chama a atenção para o fato de Brás Cubas ter sido deputado. E diz:

“Se temos, pois, em Brás Cubas, uma sublimação do secreto ideal político de Machado de Assis, teremos no sentido satírico desse episódio o reverso do mesmo ideal. No discurso do herói, Machado, segundo o seu método de compensação psicológica, destrói a possível inveja que lhe causariam aqueles que subiam, um dia, os degraus da tribuna parlamentar. O Brás Cubas da barretina reflete toda a descrença e toda a malícia de um Machado de Assis deputado”.

O desfile de perfis políticos está mesmo nas crônicas de A Semana, entre elas o texto clássico “O Velho Senado”, mas há nos romances políticos como Lobo Neves, supersticioso e fátuo; Camacho, cabo eleitoral típico; Teófilo, ansioso por se tornar ministro; Brotero, o das aventuras amorosas e não podemos esquecer o brasileiro Tristão, a naturalizar-se português para se eleger deputado por lá. Também o deputado Clodovil a viajar pela Europa.

O entorno de amigos de Machado estava farto de políticos: Alencar, Francisco Otaviano, Bocaiúva, Joaquim Serra e o maior deles: Joaquim Nabuco.

Quero testemunhar algo muito em particular. Sou, como ele de certa forma o foi, membro de uma Corte de Contas, já centenária, o que no Brasil conta muito. Machado de Assis foipor 41 anos modelar funcionário público e apetecia a ele tarefas que hoje são nomeadas como de Controle Interno.

Exerceu, entre outras tantas bem diversificadas, funções dessa natureza no Ministério de Obras Públicas. Não era esse o nome. Mas vá lá que seja para simplificar. É bom ver em papéis antigos o servidor público Machado de Assis desempenhar-se metodicamente do controle de contas dos que adquiriram lápis grafite, réguas de ébano, pó da Pérsia, cânfora, papel para embrulho, envelope para cartas.

Na obra machadiana o funcionário público sempre comparece sob a sua mordacidade, como mediocrão, relapso, incompetente, preguiçoso, exatamente o contrário do que ele foi. Rascunhava despachos antes de pô-los no papel, impugnava contas inadequadas, conteve gastos sem previsão orçamentária.

Não se poupou de caturrices, como conta Josué Montello:

Quando o Império enfardelou os trapos e a República chegou, é aconselhado a retirar da parede da repartição onde trabalhava o retrato do Imperador. Machado, solenemente esclarece:

“O retrato chegou aqui com uma portaria e só sai com outra portaria”.

Em certa crônica na Gazeta de Notícias, numa fase de altas turbulências, apelou à esperança dizendo: “Supunha o mundo perdido em meio de tantas guerras e calamidades, quando respirei aliviado: encerravam-se em Londres, com grande brilho, as festas de Shakespeare”.

Pois bem, também brilharam no mês passado, as festas da “Semana Machado de Assis”, na mesma Londres, abrindo as comemorações do seu centenário.

Fonte: http://www.academia.org.br/artigos/machado-de-assis-e-politica

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