Novos coronéis, velhas jogadas

domingo, 15 setembro, 2019

Prof. Desiderio

A primeira vista, um leitor desatento, pensará ao ler a nota da direção nacional do PT que o governador da Bahia Rui Costa marcou um gol contra. Ou deu uma bola fora. É possível até mesmo para um articulista ou analista de política ser passível desse equivoco. Pode haver equívocos nas palavras, tantos nas de Rui quanto na pretensiosa Nota , dos caciques nacionais. O “pretensiosa” aqui vem devido à ausência de outro termo que suavize as palavras censura ou controle, em relação a divergência de ideias e ou estratégias. Contudo, o objeto aqui não é analisar a Nota do PT e sim a política da Bahia, que sempre foi um capítulo a parte na história do Brasil.

A professora Consuelo Novaes de Sena na sua  obra clássica, Representação e Poder na Bahia , afirmou que nesse estado a sucessão política de um coronel nunca ocorreu pela tomada do poder e sim, pela morte, as vezes de velhice, do mandatário.

A Bahia teve grandes coronéis que governaram o estado a exemplo de Severino Vieira, José Joaquim Seabra, Otávio Mangabeira dentre outros. Todos estes estando ou não  na chefia do governo exerceram forte influência na política local e nacional. O mais recente desses coronéis e, talvez o mais longevo, foi Antônio Carlos Magalhães.  Ele foi deputado, governador, senador, ministro de estado e controlou a política baiana por 40 anos. Derrotado por Jaques Wagner,em  2006, morreria no ano seguinte deixando órfãos os seus seguidores.

Abrimos esse parêntese para afirmar que só é possível entender o que pretende Rui Costa se captarmos o seu olhar. Com certeza, não é a visão de quem está olhando para trás. Rui não entrou em qualquer tipo de polêmica nas eleições de 2018. Quem fez isso foi Jacques Wagner, o sucessor de ACM o original, na direção e articulação da política baiana. Foi Wagner quem, em 2018, defendeu o apoio a um nome fora do PT para substituir o de Lula, condenado pela operação Lava Jato e impedido de disputar a presidência do Brasil. Wagner incensou Ciro Gomes, que ficou em terceiro lugar na disputa,  atrás de Jair Bolsonaro eleito presidente, e de Haddad do PT. Portanto, naquela ocasião foi Wagner quem deu o lombo para os cardeais do PT do Sudeste bater. Rui seguiu o mestre e, cuidou da sua Reeleição a governador.

Agora, reeleito governador da Bahia, não podendo mais ser candidato, Rui se volta para o futuro e vê ampliar os seus horizontes, mas também terá que encarar os novos desafios. Ele mira o seu olhar para o futuro próximo, 2020. Só que  no caminho tem uma pedra, enorme.

Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, herdeiro político do avô, prefeito reeleito de Salvador e presidente nacional do DEM. Principal líder da oposição no estado e que já tem candidato a sua sucessão. E o que isso tem a ver com as declarações do Governador? – Bem, tirando as cortinas de fumaça,  o ponto central das declarações de Rui é: “o PT deveria ter apoiado Ciro Gomes”. O verbo está colocado no passado. Mas, ele pretende que o PDT, que faz parte da sua base na Bahia, leia: O PT pode apoiar Ciro Gomes no futuro. Isto porque, Ciro é líder nas pesquisas para presidente em 2022 na Bahia, logo, perder apoio dos trabalhistas na capital pode ser ruim para o projeto petista de derrotar Neto nas próxima eleição.

Sendo assim, fica fácil  entender a estratégia dos novos coronéis da política baiana, valendo lembrar que ACM Neto também incensou Ciro em 2018. Manteve intensos debates e reuniões para discutir o apoio do DEM a candidatura do cearense. No final, o DEM optou  pela candidatura de Geraldo Alckmin do PSDB, mas boa parte da base demista marchou com o capitão Bolsonaro. Contudo, o desejo de aliança entre O PDT de Carlos Lupi e ACM Neto permaneceu. As conversas e tratativas entre o Tomé de Souza e o Observatório da política de Ciro ficaram evidenciadas. Rui quer, portanto, tirar a pedra do seu caminho ao tentar impedir que o PDT saia da sua base.

Se Rui vai conseguir manter o PDT na sua base, não se sabe.

Mas esta é a leitura que cardeais do PDT fazem das declarações dele. Ressalte-se  ainda, para por mais lenha na fogueira, que está em andamento a provável  filiação de Léo Prates, secretário de saúde de Salvador no PDT. Se confirmado amplia as possibilidades do PDT ter candidato próprio na capital, mas a legenda também poderá indicar Prates como vice na chapa do candidato de Neto. O que seria um pesadelo para os petistas.

Desiderio.melo@bil.com.br

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Declarações polêmicas de Rui Costa causam mal-estar dentro do PT e partido divulga nota

Foto: Divulgação

As declarações dadas pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT), em entrevista à revista Veja, causaram mal-estar dentro do PT, que divulgou nota contra as falas do chefe do Palácio de Ondina.

Rui Costa afirmou que o PT deveria esquecer o “Lula Livre” na hora de firmar alianças partidárias. Também declarou que a sigla deveria condenar os abusos na Venezuela e ter apoiado Ciro Gomes (PDT) na campanha de 2018. O governador disse, ainda, que cogita ser candidato a presidente da República em 2022 (reveja aqui).

Em nota, a Comissão Executiva Nacional do PT afirmou que “a bandeira  Lula livre é central na defesa da democracia, da soberania e dos direitos no Brasil”, mas ressaltou que “não impõe condições para dialogar com todos os setores que se oponham ao governo autoritário, antinacional e antipovo”.

Sobre Ciro Gomes, o PT afirmou que o partido não apoiou o ex-ministro porque “nunca foi intenção dele constituir uma alternativa no campo da centro-esquerda, hoje menos ainda, dado que ele escancara opiniões grosseiras e desrespeitosas sobre Lula, o PT e nossas lideranças”.

No que concerne à Venezuela, o sigla disse que “o país vizinho se encontra sob criminoso embargo econômico e tentativa de intervenção militar estadunidense [com apoio do governo Bolsonaro], o que denunciamos em todos os fóruns”. “O PT repudia as tentativas de golpe, defende a pacificação do país e uma saída negociada democraticamente para a crise da Venezuela, respeitando o direito de autodeterminação do povo venezuelano”, emendou.

O partido ainda criticou Rui Costa por mostrar interesse em ser candidato a presidente da República. “Consideramos totalmente extemporâneo o debate sobre candidaturas presidenciais para 2022. No momento, nossa luta é para fortalecer a resistência ao bolsonarismo, defender a soberania nacional e os direitos sociais ameaçados. Esse processo vai produzir as condições políticas e a frente que irá, no campo da centro-esquerda, representar o povo brasileiro nas eleições de 2022”, ressaltou.