Desencontrar-se de si mesmo: Dom Casmurro e a vida não vivida

quinta-feira, 31 outubro, 2019

 

Dra. Nise da Silveira costumava dizer que considerava Machado de Assis seu grande mestre em psicologia. Os grandes escritores costumam ser, antes de tudo, grandes mestres da alma humana

LÁVIO CORDEIRO *, flavio@flaviocordeiro.com.br

De fato, o mundo interior dos personagens de Machado é tão ou mais rico do que os acontecimentos externos de suas vidas. Cada página de Machado é uma verdadeira aula de psicologia profunda, com enlaces e desenlaces, conflitos éticos e morais intensos. De todos os romances do Bruxo do Cosme Velho, o mais analisado é, sem dúvida, Dom Casmurro. O ponto crucial das discussões que envolvem Dom Casmurro é a infindável dúvida: afinal, Capitú teria ou não traído Bentinho? Não vou por aí. Escolho outra trilha, quase desapercebida, nesse grande romance: o soneto inacabado.

Macaque in the trees
** (Foto: Pixabay)

“Um soneto” é o título do capítulo LV de Dom Casmurro. Bentinho está no seminário para se formar em padre, como se sabe, contra a sua vontade. No meio de uma noite de insônia (“Insônia, musa de olhos arregalados”), lhe vem à cabeça o verso inicial de um poema, que surge na métrica perfeita de um soneto: “Oh flor do céu! Oh flor cândida e pura”. Bentinho se põe a pensar, então, quem seria a tal flor. Primeira ideia óbvia: sua amada Capitú, de quem está afastado estudando para padre. Mas, logo intervém outro pensamento: a flor bem poderia ser um conceito mais nobre: a virtude, a poesia ou, quem sabe, a religião.

Sem conseguir tomar a decisão essencial para continuar o poema, ele acaba pulando etapas e cria então o último verso: “Perde-se a vida, ganha-se a batalha”. Fica muito satisfeito com a sonoridade e com as possibilidades simbólicas de leitura: “Tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da vida, pensamento alevantado e nobre”, pensa ele. E segue pensando: poderia ser uma batalha pela pátria e, nesse caso, a flor do céu seria a liberdade. Poderia ser a caridade… e assim pensando, a noite passa e ele não conclui o soneto que vai permanecer por toda vida inacabado. Muitos anos mais tarde, tendo o adolescente Bentinho se transformado em Dom Casmurro (o casmurro querendo dizer rabugento), conclui: “Pois senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz.”

Há pessoas que passam uma vida deixando “sonetos inacabados” pelo caminho, para chegarem à conclusão, tempos mais tarde, que definem-se mais pelo que não fizeram do que pelo que de fato foram capazes de viver. Têm saudade do que poderia ter sido, e alguma mágoa ou raiva do que efetivamente foi. Dão-se mal com o passado, porque quando este era ainda o jovem presente, algo lhes impediu de, vivendo de acordo com suas inclinações e desejos, criarem um futuro mais justo para consigo próprios. Passaram a vida criando versos iniciais e imaginando um final glorioso com chave de ouro, mas evitaram de toda forma o essencial: o desenvolvimento, o sujar as mãos na lama da vida. Não se faz soneto com abertura e chave de ouro; é necessário passar pelos doze versos anteriores, pelos “doze trabalhos” que dão materialidade a qualquer realização. O excesso de hesitação enche a cabeça de pensamento e esvazia a vida de ação. Em pensamento tudo é ideal, já na vida as coisas são mais tortas, empoeiradas e muito distantes de delírios de pureza, das flores cândidas.

Uma das características marcantes da neurose é a excessiva hesitação: abundam projetos que poderiam, amores que poderiam, vidas que poderiam. Um compêndio de sonetos inacabados. Jung dizia que a neurose é caracterizada pelo desacordo consigo mesmo. O inconsciente diz que “sim” à flor, ao desejo mais autêntico, ao desabrochar do novo, a uma transformação, que envolve sempre algum risco; mas a consciência diz “não”, quer coisas elevadas e reconhecidas socialmente: virtude, moral, caridade, objetividade, amor à pátria etc. Instaura-se o desacordo consigo mesmo. Um processo aflitivo de paralisação. Lembro de um verso da poetisa polonesa Wislawa Szymborska; “Prefiro-me gostando de pessoas, do que amando a humanidade”.

Esse conflito, na grande parte das vezes, acaba produzindo a energia necessária para resolver o impasse com uma solução criativa, um acordo, um “tratado comercial” entre a atitude inconsciente que deseja e a resolução consciente que pondera: ambos cedem. Algo novo surge e o soneto se conclui, a vida anda, a flor se abre. Mas se o impasse permanece, o resultado são os sonetos inacabados da vida. Uma guerra sem fim. Prevalece o desacordo consigo mesmo, uma atitude permanente de hesitação, que conduz em algum momento a uma visão casmurra da vida.

Um poema publicado pode ser amado ou odiado, aclamado ou desdenhado. Um poema que não se publica não corre riscos, sempre poderia ter sido grandioso, mas não o sendo, também jamais será medíocre. Jamais será nada, estamos protegidos dos riscos da vida, ou assim achamos. Nos processos de grave desacordo consigo mesmo, de grave neurose, vai-se de nada em nada, projetando no outro as impossibilidades da vida não vivida. A consciência quer linhas retas, claras e objetivas, mas o processo de desenvolvimento da personalidade assemelha-se mais à forma de uma serpente, cheia de curvas, movimentos pendulares, avanços e recuos.

É sempre bom perguntarmos de vez em quando onde estão nossos sonetos inacabados e considerar o que nos impede de colocá-los na vida. Que conflito, que impasse estamos evitando confrontar? O soneto inacabado de Bentinho admitia dois finais: “Ganha-se a batalha, perde-se a vida” ou “Ganha-se a vida, perde-se a batalha”. A escolha é sempre nossa.

* psicólogo e psicoterapeuta junguiano.

fonte: Jornal do Brasil


ACM Neto admite aproximação com PDT e confirma reunião com Lupi e Ciro visando 2020 e 2022

quinta-feira, 31 outubro, 2019

O prefeito ACM Neto admitiu, na tarde desta quarta-feira (30), pela primeira vez, uma possível reaproximação do DEM, partido que preside nacionalmente, com o PDT.

Participaram do encontro o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi; Ciro Gomes, ex-candidato a presidente da República e vice-presidente do PDT; Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados; e o deputado federal baiano Elmar Nascimento, líder da bancada do DEM na Câmara. No entanto, Neto evitou entrar em detalhes sobre se haveria algum consenso em relação à liberação do secretário municipal de Saúde, Léo Prates (DEM), para se filiar ao PDT, e quais seriam as tratativas especificamente.

“É óbvio, tratamos também de assuntos referentes à capital baiana. Agora essa foi uma conversa inicial de aproximação. Essa aproximação dos dois partidos no plano nacional não está necessariamente ligada a uma aliança aqui em Salvador, mas é óbvio que não está descartada. O PDT é um aliado importante no Brasil e na Bahia, eu acho que positivo que a gente possa cultivar esse diálogo. Quais são os desdobramentos e consequências disso apenas o tempo é que vai se incumbir de dizer. Apenas por dever de lealdade e correção, confirmo que as conversas aconteceram e, se depender pelo menos da nossa parte, elas vão ter desdobramentos. Vão ser em Salvador, em outras capitais, onde vai acontecer isso? É prematuro dizer, vamos aguardar o avançar das coisas”, concluiu. (Informações do Politica Livre).

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REAÇÃO: Bolsonaro aciona Moro para que PF investigue citação de seu nome no caso Marielle

quarta-feira, 30 outubro, 2019

Enquanto o presidente falava, houve panelaços em diversas cidades brasileiras

Nas redes sociais, presidente negou envolvimento com o caso e acusa Globo e Witzel

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou nesta quarta-feira (30) que acionou o ministro Sergio Moro (Justiça) para ver se é possível que a Polícia Federal tome o depoimento de um porteiro do condomínio onde o presidente tem casa no Rio de Janeiro.

Segundo reportagem do Jornal Nacional, o ex-policial militar Élcio Queiroz, suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes em março de 2018, disse na portaria que iria à casa de Bolsonaro, na época deputado federal, no dia do crime.

Os registros de presença da Câmara dos Deputados, no entanto, mostram que Bolsonaro estava em Brasília nesse dia.

Segundo o depoimento do porteiro à Polícia Civil do Rio de Janeiro, o suspeito pediu para ir na casa de Bolsonaro e um homem com a mesma voz do presidente atendeu o interfone e autorizou a entrada. O acusado, no entanto, teria ido em outra casa dentro do condomínio.

“Estou conversando com o ministro da Justiça o que pode ser feito para tomar via PF o depoimento desse porteiro”, disse Bolsonaro. “De modo que esse fantasma que querem colocar no meu colo como mentor [do assassinato de Marielle] seja enterrado de vez”.

Para o presidente, o porteiro se equivocou ou acabou assinando o que o delegado escreveu. Ele afirmou ainda que deve ser uma pessoa “humilde” que está sendo “usada” pelo delegado a mando do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

Segundo veiculado no Jornal Nacional, o livro de visitantes aponta que, às 17h10, Élcio informou que iria à casa de número 58. O porteiro disse no depoimento, no entanto, que acompanhou por câmeras a movimentação do carro no condomínio e que Élcio se dirigiu à casa 66, onde mora Lessa.

O porteiro teria ligado novamente para a casa 58; segundo ele, quem atendeu disse que sabia para onde Élcio estava se dirigindo.

No depoimento, o porteiro teria dito que, nas duas vezes que ligou para a casa 58, foi atendido por alguém cuja voz julgou ser de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro tem duas casas dentro do condomínio -uma de sua família e outra onde reside um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC).

Os investigadores estão recuperando os arquivos de áudio da guarita do condomínio para saber com quem o porteiro conversou naquele dia e quem estava na casa 58, segundo o Jornal Nacional.(Raquel Landim/FolhaPress SNG)

 


Um terço do litoral já sofre com óleo; para ministro, fim da crise é incerto

quarta-feira, 30 outubro, 2019

Dois meses depois de primeiras manchas, 94 cidades foram atingidas pelo vazamento de petróleo

Redação
Foto: Ivo Neto/Arquivo Pessoal
Foto: Ivo Neto/Arquivo Pessoal

 

Com um terço do litoral brasileiro —2.500 km— atingido por manchas de óleo, o governo federal ainda não sabe dizer se o problema está perto de ter um fim, informa reportagem do jornal Folha de S. Paulo.

Segundo a publicação, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, disse na terça-feira (29) em apresentação do balanço das ações tomadas até então que não há como mensurar a quantidade de petróleo ou antever que rumo as manchas tomarão no futuro. “Estamos aperfeiçoando os processos”, disse.

As primeiras manchas de óleo a surgirem no litoral do Nordeste foram vistas na Paraíba em 30 de agosto. Até o momento, 268 locais foram afetados em 94 cidades dos nove estados do Nordeste. A Bahia é o estado mais afetado, com 68 locais oleados.

Testes feitos pela Petrobras e pela Marinha mostraram que o material não era brasileiro. As análises indicavam assinatura venezuelana, uma mistura de três campos de exploração no país. Em resposta, o governo de Nicolás Maduro negou que seja responsável pelo desastre ambiental.

No último dia 23, em pronunciamento oficial em rádios e televisão, Salles afirmou que o governo brasileiro acionou a OEA (Organização dos Estados Americanos) para que o país vizinho forneça informações sobre o material.

Em outras oportunidades, Salles e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) sugeriram, além da Venezuela, outros possíveis outros culpados, sem apresentar provas.

Em postagem numa rede social, Salles publicou foto antiga de uma embarcação do Greenpeace, dizendo que ela estava próxima do litoral brasileiro à época do vazamento, sugerindo ligação com o desastre. A ONG disse que acionará a Justiça contra o ministro.

Bolsonaro, por sua vez, sem mostrar evidências, questionou se o desastre ambiental não teria sido premeditado para prejudicar a realização do megaleilão de petróleo da cessão onerosa que será realizado em novembro. O presidente não respondeu ao pedido de esclarecimento feito pela reportagem.

Entre as possíveis explicações para o vazamento estão uma falha na transferência de óleo entre navios (ship-to-ship) ou mesmo vazamento de óleo transportado em barris reaproveitados da Shell —algumas unidades foram encontradas em praias brasileiras.

Bahia.ba


Reunião entre Neto e Lupi avalia alianças entre DEM e PDT de olho nas capitais e em 2022

terça-feira, 29 outubro, 2019

por Matheus Caldas

Reunião entre Neto e Lupi avalia alianças entre DEM e PDT de olho nas capitais e em 2022

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias e Divulgação / PDT

Presidente nacional do DEM, o prefeito de Salvador, ACM Neto, terá uma reunião com o chefe do PDT, Carlos Lupi, nesta semana, em Brasília. Ambos discutirão possíveis alianças em outros estados do Brasil. No entanto, de acordo com o gestor soteropolitano, isto não deve acontecer no primeiro momento, embora ele não descarte a possibilidade.

“Não significa dizer que haverá aliança na Bahia ou em Salvador. Nós estamos com uma conversa nacional, que, eventualmente, poderia até, em algum momento, se estender para o plano local. Mas, por enquanto, faremos uma conversa mais ampla em aspecto nacional”, explicou, em entrevista ao Bahia Notícias.

Neto afirma “não ter nenhuma restrição ao PDT”. “Muito pelo contrário. Acho que o partido tem bons quadros e, de fato, esse diálogo vai acontecer”, pontuou.

Lupi comunga com o discurso de Neto. O presidente nacional pedetista diz “não ter preconceito com nenhum partido”. “Nós não estamos fechados a diálogo com ninguém. Por exemplo: fui ao Mato Grosso. Lá, o governador é do DEM, o vice é do PDT. Lá tenho uma aliança configurada. Vai depender muito da circunstância, da realidade local, desse quadro que a gente está avaliando”, indicou.

Não é o primeiro encontro entre Lupi e Neto em outubro. Os dirigentes tiveram uma conversa informal durante o encontro nacional de presidentes e líderes de partido, em Brasília, na última semana. Em Salvador, o pedetista também teve um encontro com o governador Rui Costa (PT). “Somos aliados. Ele sempre tratou a gente com muito respeito, muito carinho. Nós fomos conversar um pouco com ele sobre o quadro estadual e nacional”, disse Lupi.

Conforme apurado pelo BN, esta aliança deve permanecer, inclusive com anuência de Neto. Segundo os correligionários do prefeito, com a filiação do secretário Leo Prates (Saúde) ao PDT, a intenção é ter a sigla de Lupi como “aliada formal” mesmo que a legenda não rompa com a base petista. Na capital baiana, o vereador Odiosvaldo Vigas (PDT) já integra a base do prefeito (leia mais aqui).

VISITA A SALVADOR
A conversa de Lupi com o Bahia Notícias não se resumiu ao encontro com o prefeito soteropolitano. Ele revelou uma conversa inicial com o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani. A pauta: prefeitura de Salvador.

O dirigente pedetista também comentou sobre a suspensão dos deputados que votaram a favor da reforma da Previdência (leia mais aqui) e falou sobre o voto da senadora Kátia Abreu, que votou pela aprovação do texto (leia mais aqui).

Bahia Noticias

Nosso comentário

O PDT de LUPI deseja um palanque forte, também na Bahia,  para Ciro Gomes em 2022. O DEM de Neto precisa manter a hegemonia política na capital baiana elegendo o seu candidato em 2020. fácil deduzir que essa união seria o casamento perfeito. Pode ser, para Lupi, Ciro e Neto. Mas e para a direção estadual pedetista aliada e dependente do PT no Estado,   seria também conveniente, não sendo tem espaço para um triangulo amoroso? Vale lembrar que pela mesma razão RUI rompeu com o PDT em 2015. confira nos próximos capítulos. ( prof. Desiderio)

Realativas:

https://atarde.uol.com.br/politica/noticias/1654385-rui-toma-secretaria-e-rompe-com-pdt-que-fica-com-neto-premium


Duas de Veríssimo

segunda-feira, 28 outubro, 2019

Em tempos de de inutilidades, fanfarrices e fakes.

A nossa homenagem a quem trabalha muito para não deixar a peteca cair no mundo real.

Salve o 28 de outubro, dia do Servidor Público.

Veja a seguir duas crônicas de Veríssimo que embora seja ficção,  faz referência ao universo e cotidiano do anedotário sobre o servidor público.

 

BRINCADEIRA

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
– Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

– Como é que você soube?

– Não interessa. Sei de tudo.

– Me faz um favor. Não espalha.

– Vou pensar.

– Por amor de Deus.

– Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

– Sei de tudo.

– Co- como?

– Sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

– Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

– Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:

– Está bem, você sabe. E daí?

– Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

– Se você contar para alguém, eu…

– Depende de você.

– De mim, como?

– Se você andar na linha, eu não conto.

– Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

– Eu sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

– Não sei. O que é que você sabe?

– Não se faz de inocente.

– Mas eu realmente não sei.

– Vem com essa.

– Você não sabe de nada.

– Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?

– Não existe nada.

– Olha que eu vou espalhar…

– Pode espalhar que é mentira.

– Como é que você sabe o que eu vou espalhar?

– Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

– Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

– Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.

– Aquilo o quê?

– Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

– Você contou para alguém?

– Ainda não.

– Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

– Por que eu? – quis saber.

– A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.

– Por quê?

– Pela sua descrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

– Sei de tudo.

– Co- como?

– Sei de tudo.

– Tudo o quê?

– Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:

– Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.


Luis Fernando Veríssimo

4) APRENDA A CHAMAR A POLÍCIA

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranqüilamente.

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.

Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.
Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:

— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:

— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:

— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

Fonte: https://www.refletirpararefletir.com.br/

4 CRÔNICAS DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


Quem matou Marielle? Foi o político Domingos Brazão, diz MPF

sábado, 26 outubro, 2019

Jornal do Brasil REDAÇÃO JB, redacao@jb.com.br

A informação circulou ontem à noite no portal Uol. A Procuradoria-Geral da República denunciou Domingos Brazão ao STJ. Ele “arquitetou o homicídio da vereadora Marielle Franco e visando manter-se impune, esquematizou a difusão de notícia falsa sobre os responsáveis pelo homicídio”, escreveu Raquel Dodge em seu último ato como procuradora geral da República.

Macaque in the trees
Domingos Brazão (Foto: Carlos Sucupira/Alerj)

“Fazia parte da estratégia que alguém prestasse falso testemunho sobre a autoria do crime e a notícia falsa chegasse à Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, desviando o curso da investigação em andamento e afastando a linha investigativa que pudesse identificá-lo como mentor intelectual dos crimes de homicídio”, diz a denúncia.

Brazão é ex-deputado e conselheiro afastado do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Rio).