Se você é feito de música, este texto é pra você

quinta-feira, 30 janeiro, 2020

POR LARISSA BITTAR

 

Às vezes, no silêncio da noite, eu fico imaginando: que graça teria a vida sem música? Sem ela não há paz, não há beleza. Nos dias de festa e nas madrugadas de pranto, nas trilhas dos filmes e nas corridas no parque, o que seria de nós sem as canções que enfeitam o cotidiano com ritmo e verso? Quem nunca curou uma dor de cotovelo dançando lambada ou terminou de se afundar ouvindo sertanejo sofrência? Quantos já criticaram funk e fecharam a noite descendo até o chão? Que atire o primeiro vinil quem jamais caiu na contradição de dizer que odeia rock e cantarolar “We are the champions” no chuveiro após ser promovido. Tudo bem… Raul nos ensinou que é preferível ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Já somos castigados com o peso das tragédias, o barulho das buzinas, os ruídos dos conflitos. Ao menos com a música não tenhamos amarras — porque ela salva. Tem hora que a gente desanima. Há momentos que são como um bandolim desafinado e aí é um chorinho atrás do outro. É pau, é pedra, é o fim do caminho. Há uma nuvem de lágrimas sobre os olhos, você está na lanterna dos afogados, coração despedaçado, sociedade em frangalhos e vem o pensamento: “inútil, a gente somos inútil”. Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade. Na sarjeta da emoção dá vontade de gritar: “eu não sou cachorro, não!” Mas como um sopro, da janela do vizinho, entra o samba que reanima a mente. Floresce do fundo do nosso quintal a batida que ressuscita o ânimo, sintoniza a alegria e equaliza o fôlego. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Recupera a fé e diz: “I will survive”.

Ouça-me bem, preste atenção: o mundo é um moinho. É roda viva que nos leva do chão ao topo em um segundo. Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Em outros, baila “Macarena” com quadril e riso frouxos. Nos poemas mais refinados e nas coreografias extravagantes, aprendamos com a música que viver é alternar leveza e vigor. É saber mesclar a astúcia dos repentes improvisados com a minúcia das peças eruditas. É se ver no olho do furacão e segurar o Tchan pra não sucumbir. É ajustar o passo na cadência do tempo que voa, amor, escorre pelas mãos. Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para.

Então vem, vamos embora que esperar não é saber. Vamos viver tudo que há pra viver, amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Corra. Afeto não é como o trem das onze que oferece aos descuidados, na manhã do dia seguinte, uma chance de voltar a Jaçanã. Pegue logo o Calhambeque ou o Camaro amarelo e acelere para não perder nenhum pedaço do trajeto. A vida tem pressa para acontecer. E acontece num piscar de olhos. Dá vontade de pedir que espere um pouco para a gente respirar. Por favor, vá devagar! Devagar, devagarinho. Despacito.

Mas nadar contra a corrente não é pedido que se faça. A rota segue, sem pausa, pra mim, pra você, pras preparadas, as popozudas, o baile todo. Não adianta ir negando as aparências, disfarçando as evidências… burrice viver entre tapas e beijos com o calendário. Passei anos apaixonada pelo passado, mas não era amor. Era cilada. No fim das contas estou cansada de saber que o tempo é mais aliado que inimigo. Eu reclamo só pra contrariar. Faz parte do meu show. Depois de décadas ampliando o repertório e desbravando melodias, cada nota me ensinou de tudo um pouco. Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar… mas vou resumir. Da vitrola da casa da minha avó aos fones de última geração do meu aparelho portátil, aprendi que a gente tem que olhar pra frente. Caminhando e cantando e seguindo a canção.

 

De: WALDEMAR PEDRO ANTONIO

 

PEDRO PEDREIRO

Chico Boarque

Há uma de suas  primeiras crônicas musicais  em que Chico conta a história de um homem , esperando o trem que nunca chega ; esperando um aumento que não ganha nunca ; esperando a sorte de ganhar na loteria .  A repetição do verbo  esperar , no gerúndio ,  cria no corpo da canção o sentimento de expectativa sempre renovada e adiada . O gênero da  canção é uma das características  do autor , enfatizando uma temática de cunho social  em  “  PEDRO  PEDREIRO  “ .

[ “ / Pedro pedreiro  penseiro esperando o trem / Manhã , parece , carece de esperar também / Para o bem de quem tem bem / De quem não tem vintém / Pedro pedreiro fica assim pensando / Assim pensando o tempo passa / E a gente vai ficando pra trás / Esperando , esperando , esperando / Esperando o sol / Esperando o trem /Esperando o aumento / Desde o ano passado /Para o mês que vem /  [  Pedro pedreiro penseiro …….  de quem não tem vintém  ] (bis )

/  Pedro pedreiro espera o carnaval / E a sorte grande do bilhete pela federal / Todo mês /  [ Esperando , esperando …….. Para o mês que vem  ]  /  Esperando a festa / Esperando a sorte / E a mulher de Pedro / Está esperando um filho / Pra esperar também /  [ Pedro pedreiro penseiro ……. não tem vintém  ] /  Pedro pedreiro está esperando a morte / Ou esperando o dia de voltar pro norte / Pedro não sabe mas talvez no fundo / Espera alguma coisa mais linda que o mundo / Maior do que o mar / Mas pra que sonhar / Se dá o desespero de esperar demais / Pedro pedreiro quer voltar atrás / Quer ser pedreiro pobre e nada mais / Sem ficar esperando , esperando , esperando / Esperando o sol / Esperando o trem / Esperando o aumento para o mês que vem / Esperando um filho pra esperar também / Esperando a festa / Esperando a sorte / Esperando a morte / Esperando o norte  / Esperando o dia de esperar ninguém /Esperando enfim nada mais além /Da esperança aflita ,bendita , infinita / Do apito do trem / Pedro pedreiro esperando / (bis) / Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem/ Que já vem , que já vem , que já vem …………/ “ ]  .

 

Fonte: https://leopoldinense.com.br/coluna/487/as-cronicas-musicais-de-todos-os-estilos-nas-narrativas-poeticas-de-chico-buarque-de-holanda


OAB fiscalizará atuação de escritórios de advocacia estrangeiros no Brasil

terça-feira, 28 janeiro, 2020
 
Conselho Federal

A OAB Nacional, por meio da Coordenação Nacional de Fiscalização da Atividade Profissional da Advocacia, passará a fiscalizar a atuação dos escritórios de advocacia estrangeiros no Brasil. Segundo o presidente da coordenação, Ary Raghiant Neto, que é o secretário-geral adjunto da OAB Nacional, diversas seccionais têm recebido denúncias a respeito da atuação de estrangeiros no país fora dos parâmetros e diretrizes estabelecidos no provimento 91/2000, que regula as hipóteses e as condições para que os estrangeiros possam atuar no Brasil.

“O Conselho Federal, por meio da Coordenação Nacional de Fiscalização do Exercício Profissional, inaugura uma nova pauta na defesa dos interesses da advocacia brasileira. Temos recebido denúncias de diversas seccionais de que empresas públicas e privadas estão contratando advogados no exterior para atuar no Brasil. A Ordem, cujo papel é exercer a fiscalização da advocacia, vai atuar firmemente nessa pauta. Não queremos restringir o mercado brasileiro, longe disso. Queremos que os advogados estrangeiros que aqui eventualmente possam atuar o façam de acordo com o provimento 91 de 2000. Fora desses limites configura-se exercício ilegal da profissão e isso a OAB não vai tolerar”, disse ele.

De acordo com Raghiant Neto, a atuação será feita com diferentes abordagens e com o envolvimento de diversos setores do sistema OAB. Haverá ação a partir de denúncias feitas pelas seccionais, bem como trabalho por meio do departamento de Tecnologia da Informação da OAB Nacional, da Corregedoria Nacional e da Comissão de Fiscalização. “Vamos atuar verificando sites e checando notícias que envolvam a atuação de escritórios estrangeiros no Brasil”, resumiu ele.

No âmbito deste esforço, a OAB oficiou, nesta terça-feira (21), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para pedir esclarecimentos acerca da contratação de escritório de advocacia estrangeiro com o objetivo de realizar uma auditoria naquela instituição.

Confira aqui a íntegra do ofício encaminhado ao BNDES


Sentenças em breve serão dadas por robôs, afirma representante de advogados

segunda-feira, 27 janeiro, 2020

Jornal do Brasil

O uso de mecanismos de inteligência artificial já começou a mudar a rotina de escritórios de advocacia e tribunais brasileiros e terá grande impacto na solução de milhões de processos, afirma o presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), Renato Cury, em entrevista.

Reeleito para comandar a entidade da advocacia paulista que se dedica à prestação de serviços e ao oferecimento de cursos de capacitação, Cury diz que o principal problema da classe hoje é a proliferação de faculdades de direito que não formam profissionais com preparo adequado para a profissão.

O presidente da AASP, que conta com mais de 80 mil associados, afirma que em tempos de polarização política os advogados devem atuar como pacificadores e defensores do pluralismo de ideias.

Qual a sua avaliação sobre aplicativos que oferecem o serviço de busca e contratação de advogados?

Renato Cury – A relação entre advogado e cliente é uma relação de confiança, e isso a tecnologia não vai mudar. A tecnologia pode abrir portas para facilitar a busca, mas aplicativos que indicam profissionais têm até um viés de mercantilização, o que é contrário aos próprios princípios da advocacia.

A confiança no aplicativo é muito sensível, é algo que, de certa forma, poderia ser imprudente. A parte precisa saber quem é o profissional que está atendendo e saber se ele tem respeito aos preceitos éticos. Os aplicativos não vão conseguir suprir isso.

Confiança e credibilidade você consegue transmitir no olho a olho. Aqueles que tentarem se valer de outros instrumentos podem ter surpresas desagradáveis.

Houve perda de qualidade nas decisões judiciais no Tribunal de Justiça de São Paulo com a adoção dos julgamentos virtuais, nos quais os desembargadores apenas enviam os votos aos colegas e não há discussão presencial sobre os processos?

Renato Cury – A questão do julgamento virtual é necessária em razão do grande volume de processos em andamento no tribunal. O advogado tem a prerrogativa de requerer o julgamento presencial, se entender que isso é o ideal para o seu caso.

Mas nem todos os processos demandam julgamentos presenciais, e isso permite que os desembargadores consigam se debruçar naqueles casos mais complexos. Não houve prejuízo na qualidade das decisões, que dependem mais do perfil de quem está julgando do que da modalidade, presencial ou virtual.

Qual foi o impacto da obrigatoriedade do uso dos sistemas digitais para a apresentação e trâmite de ações, como ocorreu no tribunal paulista?

Renato Cury – A advocacia sofreu um pouco nesse período de transição, mas hoje já convive com isso. De certa forma, a vinda do processo digital trouxe uma maior agilidade na tramitação dos processos. Hoje o advogado não precisa mais se deslocar até o fórum para fazer o protocolo físico ou fazer uma cópia. Ele faz isso de seu escritório.

Dentro dessa realidade tecnológica, também há o uso da inteligência artificial. Há programas à disposição dos advogados para ajudar a entender como um juiz julga determinadas matérias, com base nas sentenças anteriormente proferidas por ele. Isso faz com que o advogado tenha uma previsibilidade muito maior a respeito do resultado do seu processo e possa aconselhar seu cliente a tomar uma melhor decisão, às vezes até estimulando a realização de um acordo.

Como o sr. vê o uso da inteligência artificial no sistema judicial?

Renato Cury – Hoje a inteligência artificial já é uma realidade. Já sabemos, por exemplo, que no estado do Paraná um juiz desenvolveu robôs que analisam os casos novos, verificam se ele já julgou processos semelhantes e trazem as decisões a ele. Obviamente isso ainda depende de uma interação humana, na verificação de tudo aquilo que foi trazido pelo robô.

Mas a inteligência artificial vem até por uma necessidade, já que temos uma Justiça massificada. Considerando que temos mais de 100 milhões de processos em tramitação no país, é humanamente impossível você ter uma análise detalhada de cada um dos casos.

Hoje já existem sistemas que são utilizados por escritórios de advocacia no qual o robô acessa o sistema do tribunal diariamente e identifica a propositura de ações contra os clientes do escritório. Esse robô já faz o download da petição inicial e faz a leitura do pedido feito na petição. Em seguida, envia uma minuta de email informando detalhes sobre a ação e a média de condenações aplicadas pelo juiz do caso. Em alguns casos, também já sugere a realização de acordos.

Também já há sistemas no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal que estão sendo desenhados para o uso da inteligência social em prol de uma otimização da prestação jurisdicional.

É possível que, no futuro, para determinados casos, as sentenças sejam elaboradas por robôs?

Renato Cury – Sentenças em um futuro muito próximo serão dadas por robôs. É claro que os juízes terão muito cuidado, pois continuarão sendo obrigados a assinar as sentenças. Não pode ser uma linha de produção, a interação humana ainda vai ser necessária, até para que seja feita uma conferência, porque aquela sentença pode impactar a vida de um cidadão. Deixar isso ao exclusivo critério de um sistema, acho ainda complicado, mas estamos caminhando para isso. É uma realidade que deverá ser aperfeiçoada ao longo do tempo.

Qual é a repercussão da maior oferta de profissionais no mercado, em razão do aumento no número de faculdades de direito nos últimos anos?

Renato Cury – Esse é hoje o principal problema da advocacia. Existe um grande número de faculdades de direito no Brasil que funcionam sem a menor condição. Existe um estelionato educacional no nosso país, porque as pessoas são estimuladas a ingressar nesses cursos, a pagar durante cinco anos uma mensalidade, e ao final essas pessoas não têm a condição sequer de passar no exame da Ordem [dos Advogados do Brasil]. Essas pessoas acabam criticando o exame da Ordem, dizendo que é algo elitista, mas ele busca proteger o cidadão.

O MEC [Ministério da Educação] é o responsável, uma vez que é aquele que autoriza o funcionamento dos cursos. A OAB tem exercido um protagonismo nessa discussão, de pedir que o MEC pare de aprovar a abertura de novos cursos. É preciso fazer um trabalho cuidadoso de revisão e só permanecerem os cursos com condições mínimas.

Como o sr. vê a posição da advocacia em tempos de polarização ideológica?

Renato Cury – Não podemos alimentar esse antagonismo. Pelo contrário, o advogado é o pacificador, tem que trabalhar na defesa ferrenha do Estado democrático de Direito, do diálogo, da construção das pontes. Temos que mostrar que a advocacia está unida em prol de uma pauta de avanços civilizatórios, e não retrocessos.

Não devem imperar a raiva e o preconceito. Posso não concordar com determinadas posições, mas nem por isso eu preciso trabalhar para acabar com a pessoa que pensa diferente de mim. A pluralidade de ideias é que levará à reafirmação do Estado democrático de Direito.

O deputado Eduardo Bolsonaro trouxe à tona o debate sobre o emprego de um novo AI-5. Como o sr. vê essa discussão?

Renato Cury – Falar em AI-5 no século 21 não traz qualquer benefício para a construção dos caminhos que são necessários para o país. Há uma série de pautas, a da educação, a do saneamento, a do desenvolvimento econômico, que superam qualquer discussão que se possa levantar em prol do AI-5.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, disse que não recebe o presidente do Conselho Federal da OAB, Felipe Santa Cruz, sob a justificativa de que este teria adotado ‘postura de militante político-partidário’. Como o sr. avalia essa situação?

Renato Cury – Independentemente de polarizações ideológicas, o presidente do Conselho Federal exerce uma representatividade e precisa sim ter um diálogo muito próximo com o ministro da Justiça, que comanda a Polícia Federal. É preciso conviver com as diferenças. Elas não podem suplantar os interesses institucionais.

A Lava Jato trouxe acusações sobre escritórios e advogados que teriam participado de crimes em esquemas de corrupção. Como prevenir a atuação de advogados em delitos?

Renato Cury – O advogado que agir fora dos limites legais tem que ser exemplarmente punido. Não é admissível que qualquer ilegalidade seja relevada.

Mas precisamos ter o cuidado de não confundir o advogado com o seu cliente, e hoje isso tem sido feito de forma deliberada, muitas vezes nas redes sociais, no sentido de criminalizar o direito de defesa. Muitos advogados são atacados de forma injusta porque estão exercendo a sagrada atividade profissional de defender alguém.

RAIO-X

Renato José Cury, 45

– Presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) desde janeiro de 2019

– Possui graduação, pós-graduação em processo civil e mestrado em direitos difusos e coletivos, com ênfase em relações de consumo, pela PUC-SP

– É sócio do escritório Inglez, Werneck, Ramos, Cury, Françolin Advogados com atuação em assessoria preventiva nas matérias de direito civil, comercial e consumidor, arbitragem, contencioso civil, direito automotivo, direito do consumidor e direito público (Flávio Ferreira/FolhaPressSNG)


CRÔNICA DE ANO NOVO (LUIS FERNANDO VERÍSSIMO)

domingo, 5 janeiro, 2020

Foto Google: Luis Fernando Veríssimo

 

“Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano-Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca falta um prato de lentilha para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar da meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida do relógio, e os hospitais ficam cheios no dia 1º. Na Suíça, comem o relógio.

Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda lógica. Se o champanhe aberto à meia-noite não estourar e se tiver alguém na família chamado Edgar, é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanhe está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano-Novo com vodca, os convidados devem atirar suas taças contra a parede e depois ficar muito brabos porque não há mais copos na casa e atirar o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo.

Na Índia se a primeira criança que nascer no Ano-Novo tiver bigode, fumar de piteira e pedir para falar urgentemente com o Kofi Anan, é mau sinal. Na Polinésia, em certas tribos primitivas, o guerreiro mais audaz deve levar a virgem mais bonita até a boca do vulcão e atirá-la para a morte, como um sacrifício aos deuses. Mas a encosta do vulcão é comprida, os dois param para descansar um pouco e, quando chegam à boca do vulcão, estabelece-se o paradoxo: se o guerreiro era audaz, a moça não é mais virgem, se a moça ainda é virgem, o guerreiro não era audaz, e o sacrifício sempre fica para o ano que vem. Na Austrália, todos se atiram contra a parede.

Entrar o Ano-Novo de gravata-borboleta pode comprometer seriamente as relações entre o Oriente e o Ocidente. O primeiro animal que você encontrar na rua no Ano-Novo pode significar uma coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando o xaxado na calçada significa que você está bêbado. Vá dormir.

Em certos lugares, é costume derramar champanhe no decote da mulher ao seu lado, o que lhe trará, a longo prazo, bons negócios, e, a curto prazo, um tapa-olho. Se você estiver num réveillon junto com seu patrão, não esqueça de se colocar estrategicamente para ser o primeiro a abraçá-lo à meia-noite. Dance com a mulher dele. Insista para que ele dance com a sua. Proponha vários brindes. Pule em cima da mesa. Proponha mais brindes. Diga que agora você é quem vai dançar com o patrão e não quer nem saber. Acabe lhe dizendo algumas verdades. Proteste que ninguém precisa segurar você, você está sóbrio, entende? Sóbrio! Só não sabe como uma manada de elefantes roxos invadiu o salão, ou será que a mulher do patrão trouxe a família toda? No dia 1º você não se lembrará de nada. No dia 2, você vai procurar outro emprego. Chato.

Outro costume é fazer previsões na véspera do Ano-Novo. Pode chover. Alguém, em algum lugar do Brasil, está dizendo: “Boas-entradas nada, eu quero saber onde fica a saída…” E a previsão mais fácil de todas…

– Qual é?

– Amanhã eu vou estar de ressaca!

Enfim, o Ano-Novo já está quase aí e, apesar de muita gente no Brasil telefonar para os parentes no Japão, onde o 2016 chegará mais cedo, querendo saber que tal o ano, como quem pergunta como é que está a água, ninguém sabe como ele será. Farei o possível para entrar nele com o pé direito, mas, quando perceber, ele é que terá entrado em mim, não dará para recuar.

Só sei uma coisa. Assim que o relógio terminar de bater a meia-noite, comerei meu prato de lentilha para dar sorte. Pedirei outro. E derramarei lentilha no colo, destruindo para sempre A) um bom par de calças e B) minha fé em qualquer tipo de superstição.”

Obs.: No texto original, o autor se refere ao ano de 2013.

Crônica enviada por Camila Peloso Ferreira.

fonte: http://saiavip.com.br/cronica-de-ano-novo-luis-fernando-verissimo/

 

INFORME ( Pelo Certo)

 

O blog Prof. Desiderio estará de recessso entre os dias 06/01 a 26/01/2020

Até lá

Sucesso para todos no novo ano.